Coração e razão nem sempre, ou quase nunca, andam de mãos dadas. Parece que há uma incompatibilidade genética, uma impossibilidade gritante, de ambas conviverem pacificamente.

Raramente se encontram e quando isso acontece, regra geral arranjam logo maneira de ficarem de candeias às avessas. Quando uma está muito bem instalada a debitar razões, logo vem o outro emocional redimensionar pontos de vista e quereres. Mas se é o outro que está apaixonado e dengoso, logo se vê atacado pelas tais razões tão certas, intocáveis e cheias de si.

E poderia isso nem ser assim tão delicado, chamemos-lhe assim, não fosse o caso de nos transformar a vida num inferno. Sentimos as duas forças lutarem dentro de nós como animais enjaulados a reclamarem espaço e liberdade para serem quem são.

A questão surge quando num assomo de tentativa desesperada de nos sentirmos adultos e pessoas de bem, juntamos as duas à mesma mesa e tentamos chegar a um acordo.

Negociamos bom senso, cedências, moral, promessas, dever, poder, tentativas, nunca mais, emendas, voltar atrás, tentar de novo, outra vez o dever, esquecemos o poder, e após horas e horas de entraves, revisões, alterações, lá se consegue uma paz ténue que não chegamos a perceber muito bem a quem interessa já que a nós parece não satisfazer.

Relemos a acta final e não percebemos o que afinal de contas nos sobrou.

Por algum motivo alguém disse um dia que “o coração tem razões que a razão desconhece”. Eu também.