Mapeamento da visibilidade lésbica © Tangas Lésbicas

Onde estão as lésbicas? Em que sítios se sentem, ou não, à vontade? Como vêem esses sítios? Estas são algumas das questões postas por Eduarda Ferreira no seu projecto “Camadas de visibilidade”, que pode ser consultado em pormenor aqui. Saibam por que é importante colaborar.

Tangas Lésbicas (TL): À primeira vista não se abarca de imediato a necessidade e a utilidade de um estudo deste género. Quer explicar-nos por que é a visibilidade tão importante, especialmente no caso das lésbicas?

Eduarda Ferreira (EF): A importância do mapeamento das visibilidades lésbicas está relacionada com a forte relação das identidades homossexuais com dimensões espaciais. Estas identidades dependem de espaços particulares para a sua construção, e a visibilidade espacial tem sido, e ainda é, particularmente importante para o desenvolvimento dos movimentos de direitos civis homossexuais. As identidades sexuais e o espaço são mutuamente constituídos. As identidades sexuais dependem em grande parte de espaços particulares para a sua produção, e por sua vez o espaço é produzido através da performance das identidades. Em particular as lésbicas sofrem de uma dupla invisibilidade relacionada com a sexualidade das mulheres e com a orientação sexual.

TL: Estudar a visibilidade lésbica é uma novidade, especialmente num país como Portugal?

EF: Ainda é um tema pouco estudado, mas já existem alguns trabalhos académicos relacionados com a temática LGBT e em particular com a temática lésbica. Ana Brandão, Ana Cristina Santos, Conceição Nogueira (coordenadora do projecto Cidadania Sexual Lésbica em Portugal), Paulo Jorge Vieira, Salomé Coelho, Cristiana Pena, Liliana Rodrigues, são alguns dos nomes associados a estudos nestas áreas em Portugal. No entanto, especificamente sobre a visibilidade lésbica creio que é dos primeiros.

TL: Como chegou a este projecto?

EF: Por perceber através da minha experiência pessoal como lésbica e como activista dos direitos LGBT, que a discriminação em função da orientação sexual é uma realidade com enorme peso na vida de muitas mulheres lésbicas e bissexuais, e que uma das formas de discriminação mais forte e presente é a invisibilidade lésbica no espaço público. Ao passar do activismo associativo para o desenvolvimento de projectos de investigação quero continuar a colaborar para promover uma sociedade mais justa e igual para tod@s, por isso optei por investigar um tema que tenho trabalhado noutros contextos ao longo da minha vida.

TL: Refere-se apenas ao espaço físico em que nos movemos, ou também ao virtual? E porquê?

EF: O projecto de investigação que estou a desenvolver tem como objectivo explorar as intersecções entre as identidades sociais e o espaço, em particular de que forma a participação activa em processos de mapeamento colaborativo pode contribuir para o empoderamento das lésbicas e mulheres bissexuais. Este projecto tem 3 fases. Na primeira fase estudei os espaços físicos e online lésbicos e gay em Portugal: listei os espaços comerciais de convívio identificados como “LGBT friendly”, analisei a percepção do grau “LGBT friendly” dos espaços públicos, e explorei os espaços online (websites, blogues, fóruns, etc.). Os resultados podem ser consultados emhttp://layers-of-visibility.wikispaces.com/.
Neste momento estou a iniciar a segunda fase que tem como objectivo identificar dimensões do espaço significativas em termos de identidades sociais lésbicas, e só estou interessada nos espaços físicos onde nos movemos, mais concretamente nos espaços públicos. Estou particularmente interessada em estudar de que forma como as lésbicas se sentem, ou não, limitadas a expressar os seus afectos em espaços públicos.

TL: O que é o pink money?

EF: Esta é uma expressão utilizada para identificar a oferta de produtos e serviços direccionados para consumidores LGBT com poder de compra. É uma expressão muito utilizada principalmente nos EUA e no Reino Unido, mas pouco utilizada em países como Portugal.

TL: Além de querer mapear a forma como as lésbicas sentem o espaço físico, também lhe interessa como vivem a sua afectividade nos diferentes espaços quotidianos. Por que motivo?

EF: Além de existirem poucas lésbicas com uma postura pessoal de visibilidade (o que por si só já implica um enorme e difícil processo de resistência face à discriminação existente), a expressão de afectos entre mulheres em espaços públicos é algo ainda mais raro. Portugal é um país onde é muito comum a expressão pública de afectos entre pessoas, todos os dias em todos os espaços e contextos podemos ver pessoas que se abraçam, beijam, … mas duas mulheres numa relação amorosa raras vezes o fazem, reservando esses comportamentos para espaços privados.
Na primeira fase do meu projecto de investigação verifiquei mesmo que as lésbicas e bissexuais com uma postura de visibilidade no seu dia-a-dia limitam os seus comportamentos afectivos com pessoas do mesmo sexo nos espaços públicos. O que é que faz com que as lésbicas se sintam desconfortáveis ou pouco seguras para expressarem a sua afectividade nos espaços públicos? Que factores podem contribuir para um maior sentimento de segurança e confiança que permita a livre expressão dos afectos entre pessoas do mesmo sexo?

TL: De que forma podem as pessoas corresponder ao seu pedido de colaboração neste estudo?

EF: Podem colaborar na actividade: Mapeamento colaborativo. Esta actividade pretende registar os olhares das lésbicas sobre o espaço público, como o vêm, como o sentem, o que as faz sentir confortáveis ou inseguras, o que facilita comportamentos de visibilidade, o que é sentido como ameaça, … Pode ser realizada por mulheres lésbicas ou bissexuais, o que está em análise é essencialmente uma perspectiva de género, uma perspectiva de mulheres com orientação sexual não heterossexual.
O que é preciso fazer: Sozinha, aos pares ou em grupo, deslocar-se pelo Bairro Alto em Lisboa ou baixa do Porto (ou outra área se preferirem) com um mapa da área impresso numa folha A4 (exemplos para imprimir: Lisboa e Porto e anotar no mapa as ideias, sensações e emoções relacionados com o espaço onde se deslocam (por exemplo, o que as faz sentir confortável ou insegura, o que facilita comportamentos de visibilidade, o que é sentido como ameaça, …).

TL: Tem uma lista de palavras que possam usar para definirem a sua relação com os espaços?

EF: É desejável que utilizem livremente todas as palavras e expressões que vos ocorram. Podem utilizar desenhos, esquemas, … Mas a mim ocorrem-me palavras como: seguro, ameaçador, bom, simpático, agradável, escuro, olhares, sorrisos, giras, calor, cheiro bom, barulho, vozes, sombras, cheiro a cerveja, azul … palavras que de alguma forma se associem às sensações que vão tendo enquanto percorrem o espaço que estão a “mapear”. Não têm que ter uma lógica, o que se pretende é registar as sensações no momento em que elas ocorrem.

TL: Como podem fazer-lhe chegar os mapas?

EF: Podem digitalizar e enviar por email para epcferreira@gmail.com ou se preferirem enviar por correio, para Rua da Electricidade, 3 – 6º D, 2910-724 Setúbal.
Junto com o mapa é importante que sejam enviados alguns dados:

  • Se foi uma tarefa realizada por uma ou mais pessoas (sozinha, aos pares ou em grupo)
  • Dia e hora da realização do percurso
  • Idade e zona de residência da/s participante/s

TL: Diz que há pouca coisa registada no que diz respeito ao olhar das lésbicas sobre o espaço público. Acha que ainda há medo de falar?

EF: Ainda há medo de falar, mas além disso a maioria dos estudos académicos foca mais a realidade masculina do que a feminina. As lésbicas e mulheres bissexuais estão na intersecção de género com a orientação sexual. As diferenças entre homens e mulheres que existem na nossa sociedade, não desaparecem só porque estamos a falar de gays e lésbicas, também nesta área eles têm a preponderância. Por exemplo, de acordo com a opinião das/os participantes na primeira fase deste estudo, os espaços conhecidos como LGBT friendly são mais friendly para gays do que para lésbicas ou bissexuais.

TL: Para este estudo contam apenas os locais lgbt friendly?

EF: Não, de forma alguma. A minha proposta foi a zona de bares LGBT de Lisboa e Porto por serem espaços públicos que a grande maioria das lésbicas conhece.
No entanto podem decidir “mapear” qualquer outro espaço que entendam, ou até “mapear” vários espaços🙂
Para tal é suficiente registarem num mapa desse espaço as vossas impressões e sensações.

TL: Esta é a segunda fase do projecto? Que se segue?

EF: A terceira e última fase do projecto tem como objectivo explorar como a criação e partilha de camadas de visibilidade lésbica na representação do espaço pode empoderar as mulheres que estão sujeitas a discriminação em função da orientação sexual. Serão utilizadas tecnologias digitais portáteis para o mapeamento colaborativo na Web.