Acabar relações tem muito que se lhe diga. Acaba-se o quê? O hamor? O estar junto? A divisão da coisa comum? Os projectos? As prestações em conjunto? As compras do mês? A educação dos filhos?

A terminologia acabar encerra em si mesma uma tendenciosa indução de que algo começou. Pode nem ser bem assim mas eu até dou de barato que alguma coisa, vá-se lá saber o quê, tenha começado, crescido, florescido, enfim, dado um ar da sua graça.

Se o bom senso fosse para aqui chamado, dir-se-ía que a relação acaba quando o hamor acaba. Mas como nestas coisas do hamor, a inteligência e a razoabilidade não existem, diria eu,  em versão mais cool, que tudo termina quando acaba o tesão, o desejo, a paixão, o enlouquecimento geral dos seres frente ao objecto de todos os enlevos.

Diria mas não digo. O descrito acima seria fácil demais. Não queriam vocês mais nada que “olha, agora já não gosto de ti, cada um vai à sua vida e adeus até qualquer dia”. Isso é que era bom. Era. Mas não é. Pelo menos, nem sempre.

Às vezes as relações acabam porque, como se já não bastassem dois feitios, duas formas de ver a vida, duas maneiras diferentes de ser, há ainda uma multiplicidade de factores e variáveis que tornam o permanecer junto completamente impossível.

Ambas as partes gostam o suficiente uma da outra para saberem que o caminho era por ali mas, ou muitos mas depois, verificam que simplesmente não dá.

Apesar do que possa parecer, é preciso maturidade e alguma idade, para percebermos que a história do hamor e da cabana é uma falácia muito maior que a história do capuchinho vermelho. O hamor, seja lá isso o que for, tenha o tamanho que tiver e a força de Sansão que lhe atribuem, será  sempre o elo mais frágil no que toca a manter os casais unidos.

E creiam, é preciso muito mais coragem, força, estoicismo para acabar um hamor do que para correr atrás dele.

Porque às vezes é preciso deixá-lo ir. Outras vezes é obrigatório. Outras ainda porque achamos que é o melhor.

Não porque sim, nem porque não, mas porque tem que ser. Ou porque nim, como preferirem.

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