Aliar a profissão ao percurso activista

Eduarda Ferreira

Eduarda Ferreira faz parte da geração que acompanhou de perto a evolução do movimento lgbt em Portugal. A sua contribuição para o seu desenvolvimento não foi pequena, tendo participado activamente em associações e eventos que ficarão para a história social portuguesa. Actualmente procura espaços e formas de intervenção fora do circuito das associações, aproveitando a sua experiência na área da orientação sexual e de género, encarando isso como uma necessidade.

Tangas Lésbicas (TL): O que a levou a tomar parte activa no movimento lgbt?

Eduarda Ferreira (EF): A necessidade de participar na conquista de direitos para as pessoas LGBT, o acreditar que está nas nossas mãos podermos contribuir para a mudança, o sentir que no caso das lésbicas em particular existia um vazio enorme na área do trabalho associativo e da intervenção social e política.

TL: Em que altura isso se deu?

EF: Por volta de 1997, já com “alguma” idade. Até essa altura tinha andado afastada das questões LGBT, mas sempre com alguma inquietação, com vontade de fazer algo. Foi por essa altura que em Portugal começaram a surgir as associações LGBT e eu juntei-me a esse movimento.

TL: Fez parte do Grupo de Mulheres da ILGA-Portugal?

EF: Cheguei a ir a algumas reuniões iniciais, mas como me envolvi com o Clube Safo desenvolvi a minha actividade nesta associação. Mas foi no Grupo de Mulheres da ILGA-Portugal que tive a minha primeira reunião numa associação LGBT, foi um momento marcante 🙂 e foi o primeiro passo.

Eduarda Ferreira

TL: Como se deu a sua ligação ao Clube Safo?

EF: Conheci algumas pessoas do Clube Safo num Pride em Lisboa. Achei interessante o projecto e fui ao acampamento desse ano. Fez todo o sentido para mim participar num grupo que trabalhava especificamente questões lésbicas. Desde o início que assumi uma postura activa e participei na organização da associação.

 TL: Para si, qual foi a importância de um grupo como do Clube Safo para o desenvolvimento de uma forma de estar mais assumida entre as lésbicas portuguesas?

EF: Em primeiro lugar o Clube Safo foi fundamental para a minha visibilidade enquanto lésbica. Foi nesta associação que desenvolvi o que se pode chamar uma “identidade lésbica positiva”. O existirem espaços de interacção entre mulheres onde se sentiam livres e confortáveis para assumirem a sua orientação sexual, teve um efeito contaminador para outros contextos de vida facilitando o processo de visibilidade. Também foi extremamente importante existir um discurso público, como por exemplo entrevistas nos jornais e na TV, em que várias mulheres deram a cara e assumiram ser lésbicas.

TL: Concorda com o uso do termo “lésbicas”, tão contestado até pelas mulheres homossexuais?

EF: Eu posso dizer que passei de mulher homossexual a lésbica. Esta mudança de designação reflecte uma mudança de entendimento das questões relacionadas com os direitos das mulheres lésbicas. O apropriarmo-nos da palavra “lésbica”, que tem uma conotação negativa, e transformá-la na palavra que escolhemos para nos identificar é uma atitude fracturante que provoca o esvaziamento do insulto.

 TL:É realmente importante pôr rótulos às pessoas e “arrumá-las” em categorias separadas?

Eduarda Ferreira

EF: O importante é romper com as caixinhas onde teimamos em “arrumar” as pessoas. A utilização de categorias, como lésbicas por exemplo, só é importante num contexto de luta por direitos. Podemos dizer que se luta pelo direito a ser lésbica em todos os momentos, espaços e contextos, para que ser lésbica deixe de ter qualquer importância. A ILGA-Portugal teve uma campanha publicitária há alguns anos que tinha como lema “Pelo direito à indiferença”, e é exactamente essa a ideia. Mas para que seja de facto verdadeiramente possível ser indiferente, não termos rótulos nem caixinhas, é preciso que as pessoas não sejam discriminadas por serem diferentes.

TL: Voltando ao seu activismo, além do Clube Safo, em que outras associações participou?

EF: Após o meu afastamento do Clube Safo por querer desenvolver outros projectos, fui uma das dinamizadoras da criação do LES – Grupo de Discussão sobre Questões Lésbicas e actualmente colaboro com a APF Lisboa Tejo e Sado.

TL: Qual foi a posição da sua família em relação a este seu percurso?

EF: A minha família sempre me apoiou em todos os aspectos da minha vida, incluindo a minha orientação sexual, e esse facto foi fundamental para que desde muito cedo tenha tido uma postura de visibilidade sem grande esforço nem dificuldade. As minhas actividades associativas foram e são encaradas com orgulho por parte da minha família. Sinto-me valorizada por elas e eles 🙂

 TL: Quer falar-nos da Les Online?

EF: Este projecto começou a tomar forma em Outubro de 2005, quando 2 dos elementos da actual equipa editorial da LES Online criaram o blog Sexualidades no Feminino. Este blog tinha como subtítulo “Questões sobre relações lésbicas”. Definia-se como um espaço aberto a todas as mulheres e todos os homens que queiram pensar, debater e reflectir sobre a sexualidade nas mulheres. Considerando também, que dar visibilidade a estes temas é contribuir activamente para contrariar o duplo padrão que existe quando se abordam questões de sexualidade em mulheres e homens, sendo a das mulheres sempre mais silenciada e invisível. Em Abril de 2008 as promotoras do blog, em conjunto com mais algumas mulheres, organizam o Grupo LES – Grupo de Discussão sobre Questões Lésbicas. Este grupo apresenta como objectivo contribuir para a reflexão sobre as questões lésbicas e para o desenvolvimento de acções que promovam os direitos e a igualdade de oportunidade das mulheres lésbicas nas várias dimensões da sua vida, contribuindo, desta forma, para a criação de uma melhor qualidade de vida para todas e todos. A LES Online surge como um projecto deste grupo e tem como objectivo contribuir para a reflexão sobre questões lésbicas e promover os direitos e a igualdade de oportunidade das mulheres lésbicas. Pretende divulgar estudos e investigações de carácter científico, assim como projectos de intervenção e artigos de opinião, relacionados com as diversas vertentes da temática lésbica. É uma publicação online, sem versão em papel, porque o seu objectivo é ser uma publicação digital, o mais possível acessível a todas as pessoas.

Eduarda Ferreira

 TL: A comunidade lgbt é frequentemente referida como um lobby ou um grupo cujos interesses particulares ameaçam de alguma forma o resto da sociedade. Concorda com isso?

EF: De forma alguma. Só num contexto em que tudo o que é diferente é temido, é que se entende esse medo. As pessoas LGBT pela sua própria existência perturbam a ordem estabelecida, questionam os papéis de género, a estrutura patriarcal, a sexualidade, provocam desequilíbrios na estrutura heterossexista da sociedade, e creio ser esta a razão pela qual algumas pessoas se sentem ameaçadas.

TL: Em que medida é que o movimento lgbt e a sua luta influenciou a luta pelos direitos humanos em Portugal e no mundo?

EF: Sempre que se conquista direitos para um grupo específico da sociedade, todas e todos ficamos a ganhar, existe um avanço na qualidade de vida de tod@s nós. Para além deste aspecto mais geral, os movimentos pelos direitos civis específicos de determinado grupo promovem formas de luta e de intervenção que se podem estender a outros campos promovendo e contagiando outras lutas de outros grupos.

 TL:Acha que a “causa lésbica” é dissociável do feminismo?

Eduarda Ferreira

EF: Parece-me que têm muito em comum e que têm muito a ganhar se caminharem em conjunto. No caso Português temos tido uma grande interacção entre as causas lésbicas e feministas. No entanto, existem questões específicas das lésbicas que não se enquadram num contexto unicamente feminista. É necessário um espaço autónomo de intervenção. O primeiro número da LES Online foi precisamente sobre este assunto.

TL: O que está por fazer?

EF: Muito 🙂 contestar, pensar criticamente, questionar, intervir, lutar, reivindicar, reclamar, exigir, persuadir, conquistar, dinamizar, promover, reflectir, … e muito mais, no sentido de uma sociedade mais justa e igual para todas e todos.

 TL: Gostaria de colaborar com o Tangas Lésbicas e usar os seus conhecimentos e sentido de humor para acotovelar as causas sociais?

EF: Gostar, gostava 🙂 o problema é o tempo. Neste momento, e nos próximos anos, sou trabalhadora estudante. Tenho falta de tempo para ler, estudar, reflectir e aprofundar tudo o que gostaria e que preciso para o meu projecto de investigação. Mas … quem sabe se não vão surgindo algumas notas soltas.

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