Apesar do que à primeira vista possa parecer, “não esquecer” uma coisa não tem nada a ver com “lembrar” dessa coisa.

Sei que para muitos dos fieis leitores destas humildes crónicas, eu às vezes pareço superar a lógica, o bom senso e outros quesitos bem visto no dia a dia normal de pessoas ainda mais normais, mas creiam que este momento é apenas mais um de superação da loucura que brota dentro de mim descontroladamente. E vejam lá, em surdina e sem confessarem, se não tenho uma infíma razão.

Ai não me posso esquecer de marcar dentista, não me posso esquecer de ir trocar as pastilhas do carro, não me posso esquecer de ir buscar as calças que ficaram a limpar, não me posso esquecer que este mês tenho que pagar o seguro do carro, não me posso esquecer de comprar sal e fósforos……

Agora reparem:

Tenho de me lembrar de comprar o presente para o aniversário do Lucas, tenho de me lembrar de ir buscar aqueles bolos de chocolates deliciosos de que a minha irmã tanto gosta, tenho de me lembrar se a minha mota já está pronta, tenho de me lembrar se os voos para as férias estão confirmados, tenho de me lembrar de fazer aquela surpresa….

Sentiram a diferença? Estou louca, por acaso?

Não esquecer encerra em si mesmo uma aura de esforço, de obrigação, de inevitabilidade, de ter de ser.

Pelo contrário, lembrar é leve, é doce, é cheio de esperança, de desejo, de querer, de risos, de sonhos e de vida.

Se houvesse ideais, escolheriamos poucas coisas para não esquecer e muitas, muitas mesmo para lembrar.

Mas às vezes, acho que é preciso dar o dito pelo não dito, que é como quem diz, dar um lembrar por um esquecer ou vice-versa, para que tudo volte a fazer algum sentido. Porque por pequenino que seja, é esse sentido que nos vai fazer levantar e seguir em frente. Até que se torne tão grande e tão forte que sejamos nós a correr atrás dele. E aí sim, estará tudo bem.

Por enquanto prefiro não esquecer , para um dia, quem sabe, poder lembrar.