… e eu até gostava! Sentia-me mais destemida e ousada que as outras raparigas, capaz de proezas que me enchiam de auto-confiança.

Gostava de andar de calções, de subir aos muros e às árvores, de jogar à bola, de brincar com carrinhos, de construir gruas e guindastes com o Meccano, de andar com o cabelo curto e de jogar hóquei com os rapazes. Magra, magríssima, com o mundo todo por descobrir nos olhos castanhos e no sorriso que teimava em não me deixar.

Foi esta … se calhar … a primeria caixinha onde me instalei, confortável por saber o que esperavam de mim e de alguma forma, quem eu era.

Foi passando o tempo e as caixinhas foram mudando de forma, já não era só maria rapaz, era distraída e estudiosa, um pouco sonhadora, gostava de andar sózinha e ter amigos mais velhos. Não me conheciam namorados nem entusiasmos típicos das adolescentes, só o gosto pela vela e pelo mar. Boa aluna e certinha, que encanto para os pais😉

Mas … uma colega de olhos de amêndoa e o meu imaginário rico em fantasias fizeram-me explodir de ansiedade e receios. Apaixonei-me pela primeira vez, estava na idade certa, mas o sexo era errado. Amava uma rapariga e não um rapaz. E não escondia essa paixão!

Então de facto eu até tinha um ar um pouco masculino, via-se logo na minha forma de olhar as raparigas, na forma de andar e vestir, nos gostos que tinha, claro que era lésbica, não havia dúvidas. Para os outros foi mais fácil entender-me e lidar comigo se me “encaixassem” naquela caixinha, lésbica, não só amava uma mulher como tinha as outras características que, sem sobra de dúvidas, faziam de mim lésbica.

Mesmo que eu me apaixonasse por um rapaz, seria provavelmente entendido como um deslize e que em breve voltaria à minha verdadeira “natureza”, amar mulheres. A imagem estava criada e seria muito difícil sair da caixinha, deixar de ser vista como lésbica. Era mais fácil para os outros e para mim. Quando se sabe o que se espera de nós sabemos melhor quem somos. E fui-me instalando na caixinha.

O problema com as caixinhas é que nos reduzem a uma dimensão da nossa personalidade, a um único aspecto, como se só esse contasse ou fosse o mais importante de todos. É uma questão de economia mental. É o princípio de funcionamento dos estereótipos: as mulheres são assim, os homens assado, as lésbicas cozido e por aí fora.

Ousar pensar e viver fora das simplificações e dos limites das caixinhas, arriscar sair da zona de conforto do conhecido e previsível, desconstruir as representações estereotipadas com que vemos a realidade, esse é o grande desafio.

A luta que é necessário travar não tanto é pela igualdade entre lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros, hetero, … , a luta mais importante e urgente é no sentido de cada uma de nós poder ser diversa e múltipla, rica na sua própria diversidade, com o verdadeiro direito à diferença dentro de si própria.