All rights @ Tangas Lésbicas

Há algum tempo atrás as primas partilhavam um território comum que era o das leituras, o das histórias (poucas) que sabiam existir sobre lésbicas. Era o caso de O Preço do Sal, de Patrícia Highsmith, Rubyfruit Jungle, de Rita Mae Brown, Oranges Are Not The Only Fruit, de Jeanette Winterson, ou as inatingíveis novelas da brasileira Cassandra Rios, para só falar em alguns exemplos.
Foram obras marcantes para algumas gerações de primas sem as perspectivas das de hoje. Não usufruiam nem da liberdade, nem do apoio, nem da visibilidade, nem da facilidade ou disponibilidade de meios e de informação. A simples decisão de procurar um livro para ler era, por si só, um risco de dimensões imprevisíveis. Toda e qualquer tenttiva de entrar em contacto com gente de igual orientação ou referências era uma espécie de expedição aos pólos gelados do planeta.
Hoje, mesmo com liberdades conquistadas, informação que se pode encontrar ao pontapé por todo o lado, largamos aqui uma pergunta óbvia sobre um livro e apenas duas pessoas demonstram saber de qual se trata. As razões para isso podem ser muitas, até a mais crua falta de interesse pelo assunto.
O que me vem à cabeça é, no entanto, uma frase dita numa entrevista pela escritora Lídia Jorge, sobre os políticos actuais, que era mais ou menos assim: antigamente, os políticos eram pessoas que liam e, por isso, pessoas cujo mundo era enriquecido pelas ideias dos outros; hoje, os políticos não lêem e, portanto, o seu universo de ideias é limitado; como podem eles pensar em soluções para os outros, para as pessoas que devem servir, se não lêem e não têm ideias sobre o que as coisas podem ser?
Primas: há dezenas e dezenas de livros de histórias de lésbicas, de ideias sobre o que é um universo em que as mulheres partilham afectos e o que lhes passa pela cabeça, pelo corpo, pela vida. Como é que podem ignorar isso? Como podem deixar passar, como se não tivesse nenhum interesse, esse universo fantástico e cheio de fascínio que é o das histórias de primas sobre outras primas? Como é que se pode construir uma vivência mais rica sem essa ajuda preciosa que são os livros?
Alguém já leu — ou ouviu falar — de alguns destes (além dos de cima): Pages For You, de Sylvia Brownrigg;  Tipping The Velvet, de Sarah Waters; A Cor Púrpura, Alice Walker; A Carta de Amor, de Cathleen Schine; Duas Senhoras Bem Comportadas, de Jane Bowles; Alice e o Abismo, de Leonor Campos; entre muitos outros?