Foi com orgulho, alegria e um leve humedecer de olhos que recebi a única notícia da semana que valeu a pena ouvir. Finalmente o Fado é Património da Humanidade.

Fado, o nosso Destino, a nossa Alma como quase sempre é definido.

Pensando com algum desvelo no assunto, dei de caras com a constatação irrefutável de que o Fado mais não é que o hamor, cantado na forma do inevitável sofrimento atroz e dor que sempre acarreta.

Para quem não acredita nas potencialidades do Portugal actual, aqui está a prova que conseguimos com algum engenho e arte, convencer o mundo que o sofrimento, a dor, o abandono, a saudade, a traição, o desamor, a tristeza, o corno e a vontade de morrer, são coisas que, desde que cantadas com um xaile às costas e um rosto sofrido, podem e devem passar a fazer parte dos tesouros imaterias do mundo.

O Fado é a expressão máxima do hamor. Ou do não hamor, para sermos mais especificos. Existe, é triste e é fado. Senão, vejamos:

Quando se diz, “ao fim de tantos anos de ser tua, amaste outra, casaste, foste ingrato, vi-te passar com ela à minha rua, abracei-me a chorar ao teu retrato…. Podes sempre bater à minha porta mas não passes com ela à minha rua”, isto é ou não é uma clara demonstração de pouca vergonha na cara e de gostar de ser enganada?

Quando correm lágrimas ao escutar  “cheia de penas me deito e com mais penas me levanto…eu digo que não te quero e de noite sonho contigo”  ou ainda melhor, “se o meu amor vier cedinho, eu beijo as pedras do chão que ele pisar no caminho”, isto só pode querer dizer que o hamor levou alguém a um estado de demência tal que requer cuidados médicos imediatos.

E que dizer de quando estamos em casa, na rotina prazerosa de um final de tarde, e ouvimos o nosso hamor trautear “de quem eu gosto nem às paredes confesso…” Ah! Aquilo é que são facadas no estômago, punhais no figado, que raio quererá ela dizer com aquilo?  Se tivermos bom senso e quisermos evitar algum tipo de constrangimento, fingimos que não ouvimos e colocamos um cd de samba canção no volume 17 e daí a pouco já ninguém se lembra do que confessa ou não às paredes, sim, porque caso não saibam, também há paredes de vidro, não são só telhados.

E pronto, para nós, românticas incuráveis (é pá, esta agora foi brutal), o hamor aproveitando a boleia do fado, é também, desde domingo, Património da Humanidade.

Qual deles a mais estranha forma de vida!