Poucas coisas na vida me enfastiarão tanto como a incoerência, a mentira, a hipocrisia e o faz de conta. Se uma delas, isolada, já faz mossa, imaginem bem quando as quatro se unem para nos secar a paciência e testar até que ponto estamos preparados para não desatar à chapada e ao encontrão ao alheio.

Meninas, esta época que dizem “festiva”, é a cereja no topo do bolo da verdadeira farsa humana.

Estava eu num dado sítio desta Lisboa, de olhos fechados, papilas gustativas sonhadoras, pensamentos a deambular sobre a proporção dos ingredientes bem como a temperatura e tempo de cozedura do macarron que tinha enfiado na boca, num estado de absoluta elevação de alma, quando sou interrompida por uma voz estridente que guinchava de uma mesa a dez metros de onde eu me encontrava, “m….! esqueci-me de comprar a m… do presente para o c…. do meu sobrinho!”. Devo informar que tudo isto foi vociferado com raiva, impaciência, chatice, quase a roçar o desespero.

É mais uma vez sem surpresa que constato que a tão propalada época do hamor, não passa de um frete, de uma obrigação tormentosa, talvez até desconfortável, a qual todos, ou quase todos, desejam ansiosamente que passe depressa.

Muitos farão de conta que estão felizes, outros que gostaram dos presentes, outros que estão com quem amam, outros fingirão que está tudo bem, consoante o grau de imaginação e resistência gástrica de cada um.

Mas, resta-me a esperança de que um dia destes, a insanidade se veja a braços com a seguinte questão filosófica: se o Natal é sempre que um homem quer, então os presentes e o hamor também poderão e deverão ser.

E parafraseando a minha irmã, olhem, um santo nabal, que é mais para o que isto anda.