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Anos atrás, vá-se lá saber porquê, uma pessoa com quem tinha tratos absolutamente profissionais, relação essa tão afastada da psicologia clínica como o meu palato está de um borrego com caril, telefonou-me a meio da tarde e sem sequer um cumprimento de entrada, disparou sem piedade: “ó dra margarida, diga-me lá o que é que eu devo fazer, separo-me ou não do meu marido?”. Não fosse eu a única ali a quem aquele telefonema pudesse ser dirigido e de imediato teria encaminhado a chamada para alguém mais versado do que eu nestas coisas do aconselhamento amoroso, pois que os há aos montes e sem qualquer empecilho na língua para dardejar miilongas.

Bom, ali estava eu, de telefone quase enfiado na orelha, a olhar de soslaio para os meus colegas para tentar perceber se eles estavam a par do meu constrangimento, quando rosno baixinho “ó dona não sei quantas, a senhora está bem? mas sou eu que decido se o seu divórcio sai ou não sai? sou eu que lhe vai dizer se deve ou não esperar que ele lhe parta o outro braço?”

A senhora de que vos falo, deveria estar na faixa etária dos sessenta, situação económica precária, reforma mínima, muitos medos, alguns pânicos e poucas esperanças. Dadas as atenuantes circunstanciais até escutei a pergunta dela com algum carinho embora não menos estupefação.

O que me custa mais a digerir é quando malta nova, com as melhores coisas da vida como sejam saúde, família, amigos, trabalho, ainda acrescido de bónus como casa, carro, férias, passe a vida a amolgar a paciência do próximo com repetidas conversas e as mesmas perguntas de sempre sobre o que fazer com os hamores falhados, murchos, incapazes, doentios. E quando nós tentamos dizer que não temos nada a ver com isso e nos socorremos da sabedoria popular para fazer valer o nosso ponto de vista debitando provérbios como “cada um sabe de si e Deus de todos”, “casamento, apartamento” e outros que tais, assim como a querer dizer, olha lá e se fosses para casa discutir isso com o teu hamor e não me aborrecesses mais com essa conversa com que me entopes há pelo menos quinze anos, as pessoas ainda se viram para nós, com ar alucinado, surpreendido, mal humorado e absolutamente recriminatório e acusam-nos de não ajudar a decidir. Ou melhor dizendo, de não decidirmos por elas.

Isto não é mais uma história amalucada das minhas, isto aconteceu mesmo e qualquer semelhança com a realidade, acreditem, não é pura coincidência.

Meninas, preparem-se. 2012 promete ser um ano para revolucionar os hamores.