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Escrevo estas linhas, não a bordo do A300 da Ibéria, mas sim na borda do A300.

Tenho para mim que há uma qualquer malícia, para não falar em prermeditada malvadez, de nuestros hermanos, na proporção que equacionam entre a duração das viagens e o conforto do avião. Quanto mais horas demora a aventura aérea, mais pequenos, estreitos e encolhidos são os bichos.

Chamar pequeno a este avião é quase piada. Esperava eu que para uma viagem de dez horas e dez minutos pudesse pelo menos esticar as pernas ou ir buscar qualquer coisa à mochila que levo debaixo do banco da frente, qual o quê. Só o melhor contorcionista do circo Chen conseguiria tal façanha. Ainda bem que tirei o meu livro antes de me entalar neste espaço exíguo senão bem teria que ir a ler a Ibéria Magazine de Enero de 2012, de Madrid até à África do Sul.

Para começar, calhei no lugar 9A, à janela sim senhora, numa fila de dois lugares, só que….sem janela. Nem mais. Deve ser o único sítio do avião em que existe uma parede opaca. Para ver alguma coisa tenho que entalar a cabeça entre o banco e a vizinha de trás, posição essa tão incómoda quanto deselegante. Ainda bem que fui a segunda pessoa a fazer o Check-In e que pedi um bom lugar.

Continuando, tenho ao meu lado uma holandesa de proporções inacreditáveis que felizmente só me dirigiu a fala três vezes: “good evening”, “good morning” e no intervalo destas, “which language are you reading?” esta última pergunta enquanto fazia uma careta terrível ao apontar para O Caderno de Maya (que a minha mana generosamente me ofereceu para a viagem) que eu estava a ler sofregamente, como se a língua de Camões, Eça, Pessoa, estivesse impregnada de lepra. Mas pensando bem, o que esperava eu de uma mulher que além de ocupar o lugar 10A ocupava também metade do 9A e que lê revistas com uma grafia aborígene como por exemplo “staatssecretaris Henkleket is volgens insiders tot over zjin oren verlief op een 32 jaar jogere journaliste Van Handelsblad”.

Mas o que mais me custou foi a guinxaria constante de uma criança com uma birra descomunal, que durante horas e horas berrou como uma hiena histérica. Confesso que quando serviram o jantar olhei com especial enlevo para a faca inox com que golpeava carinhosamente um projecto de lasanha de legumes.

Não sei que lingua falam mas na minha mente passam frases como “mira, puedes dar uns cachacitos a el nino para que cale la matraca?” ou mesmo um menos elegante “sorry, can you kill your son, please?”

Agora são 9:45 da manhã, hora local, o que quer dizer que estamos a 1:35 de Johannesburgo. Lá fora está aquele nubladão que faz adivinhar uma canícula feroz. Aqui dentro destila-se de calor. Ainda bem que vim de tshirt. Quem vem para África, avia-se em Lisboa.

Daqui a pouco devem vir as senhoras do café, passo as tortilhas e tapas e essas coisas mas duas chávenas de café vão fazer maravilhas por mim.

Até já amigas e amigos.

PS. Já cá estou desde 4ª feira. Darei novidades.