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Cá estou eu a dar notícias, sei que esperam ansiosas as últimas novidades das minhas aventuras, ou nem tanto, neste peculiar país.

Hoje vou falar da comidinha, a food, aquilo que nos mantem de pé.

Se fosse pelo tamanho que estes bisontes apresentam, pensaríamos estar num país com uma gastronomia com, pelo menos, um décimo da qualidade da nossa. Pois se bem o pensamos melhor nos enganamos.

Começo por referir que os supermercados tem um excelente aspecto. Tem espaço, luz, variedade, bom atendimento e tamanho suficiente para nos fazer perder um bom par de horas e pesquisas entre dezenas de produtos iguais.

Agora no que à paparoca diz respeito, aí é que a porca torce o rabo. Mas também, que dizer de um país onde o prato nacional  é o churrasco e onde o Custard é quase tão importante como a água e o oxigénio?

O pior e que desde logo me deixa com a pulga atrás da orelha e a pensar que há algum sofisma nisto, é que tudo tem um extraordinário bom aspecto. Dá vontade de comprar tudo o que confesso foi o meu passatempo preferido nos primeiros dias até chegar à conclusão de que dar uma trincadela e cuspir tudo não era nem muito razoável nem me ficava muito bem. Mas eu não conseguia comer aquilo.

Querem um exemplo? Pipocas. Comprei um pacotinho de ar encantador. O pacote, as pipocas, as cores, os dizeres, tudo destilava qualidade e sabor. Guardei aquele pacotinho para uma ocasião especial o que veio a acontecer na viagem para Moçambique, para aí à décima segunda hora de viagem. Bom, assim que abri o pacotinho fui atingida e o termo é mesmo atingida,  por um cheiro de plástico puro. Peguei numa e o seu aspecto era como se tivesse sido acabada de sair de uma lata de cera Búfalo cor madeira de carvalho. Da trincadela é melhor nem falar mas valeu que não tinha janelas caso contrário algum traseunte teria ficado sem olho.

O peixe, pouco, muito pouco que há, tem um ar triste, cansado, chegou aqui derreado e nada, nem alfaces à volta, lhe conseguem devolver uma nesga de ar fresco e viçoso. Dire-se-ía que foi plantado e criado no deserto de Atacama.

A carne tem bom aspecto e é de boa qualidade, pelo menos aquela que compro e cozinho em casa, com refogadinho e manteiguinha, como manda a tradição. Mas claro que eles preferem comprar já embalado em vácuo e temperada de produtos e cores suspeitas, pronta para ir para cima do grelhador.

Piri-piri, pimentas, molhos, molhinhos, temperos, outra vez molhos e mais molhos, mais pimentas, é coisa que não falta. Têm milhares. *

Mas o delírio, a alegria, a histeria colectiva, o orgasmo alimentar destas alminhas é o Custard. Milhões de Custards, em pó, em frascos, em pacotes, sabores, por todo o lado saltam pululantes tornando-se apetecíveis e indispensáveis.

Resolvida a perceber o mito, comprei um pacotinho dos pequenos, já a antever o seu destino, de sabor baunilha (gosto muito de baunilha). Decidida a parecer da casa, meti conversa com uma senhora e perguntei-lhe onde poderia por Custard. Olhou-me seráfica, incrédula, senti terror, repúdio, agressividade e finalmente pena no olhar dela e respondeu-me “em tudo”. Fiquei esclarecida, agradeci e fui para casa decidida. O “em tudo” bem pode ser uma manga. Descasquei, reguei, fechei os olhos e seja o que Deus quiser. “Então é por este sabor mal amanhado a maisena que estes gajos vivem?” Pois o tal molho não passa disso, uma maisena mal feita mas ainda assim até que não desgostei de todo. Deve dar para safar quando algum sabor mais tipico precisar de ser  neutralizado.

Fazendo justiça, os lacticinios são óptimos, os legumes e as frutas boas, o vinho excelente, o pão só se consegue comer daquele embalado, de forma, mas como tem milhares de cereais estaladiços, a coisa até marcha.

Bom, para terminar ainda vos conto que fui experimentar o Wimpy, a casa de hamburgueres mais famosa por aqui. Afinal não vos conto. Não há palavras para descrever o dito cujo hamburguer.

Ressalvo no entanto, a simpatia das gentes, sorriso franco, fácil, sempre prontos a engatar uma conversa. Se insistem no africander ficam a falar sozinhos.

Voltarei na próxima semana, com mais mexericos.

*Só estranhei tanta abundância até ter visto o preço do papel higiénico. Depois fez-se-me luz. Levem lá o piri-piri e as pimentas e as molhangas e os custards que depois aqui pagam por todas.