Helena Topa

Helena Topa é psicóloga, do Porto, e quer dar voz  e visibilidade  às mulheres que sejam ou tenham sido discriminadas por motivos ligados à sua orientação sexual, isto é, por terem relações amorosas com outras mulheres, quer se identifiquem como lésbicas, bissexuais ou heterossexuais. Para isso procura a colaboração de lésbicas que tenham passado por essa experiência. O projecto chama-se SOS Lesbifobia (contacto: soslesbifobia@gmail.com), merece ser divulgado e o Tangas espera contribuir para isso com esta entrevista à sua dinamizadora.

Tangas Lésbicas: O trabalho que pretende fazer é um livro? Para venda ao público em geral, ou mais académico?

All rights © Tangas Lésbicas

Helena Topa: O meu projecto é reunir testemunhos de mulheres que tenham sido discriminadas por motivos de orientação sexual e publicá-los em livro. O objectivo é dar a conhecer essas experiências a um público tão vasto quanto possível. Existem, em Portugal, felizmente, já alguns estudos académicos sobre este problema, e o interesse da academia tem aumentado nos últimos anos, inclusivamente com o apoio de instituições, com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), o que é extremamente positivo. Mas o que pretendo é chegar ao público em geral, que habitualmente não tem acesso aos estudos académicos e anda longe da realidade da discriminação da população lgbt, neste caso das mulheres.

TL: Como lhe surgiu a ideia? Ou o que a levou à conclusão de que era necessário ou de que gostaria de escrever sobre o assunto?

"Muitas vezes, por questões culturais, pela discriminação a que as mulheres se foram habituando, parece-me que nem sempre têm consciência de muitas situações de discriminação"

HT: Já há algum tempo que andava às voltas com a ideia de fazer qualquer coisa para dar a conhecer a um público mais vasto situações de discriminação de mulheres que se sentem atraídas e/ou têm relações amorosas com outras mulheres. Tenho estudado um pouco o assunto da homofobia, e verifico que os livros e trabalhos académicos que se debruçam sobre esta matéria se centram ainda demasiado sobre o universo masculino, “gay”. Aliás, os termos “lesbofobia”, “bifobia” ou “lesbifobia”, como lhe chamo, para incluir as duas coisas, são mais recentes. As mulheres estão ainda sujeitas a uma maior invisibilidade, também nesta matéria, do que os homens: há mais conhecimento sobre a realidade masculina, mais estudos, mais estatísticas, mais história também por detrás da perseguição aos homossexuais masculinos, pelo menos desde a antiga Grécia. Em relação às mulheres, os dados são muito mais escassos. As mulheres (lésbicas, bissexuais, heterossexuais) estão, também sob este aspecto, numa situação de dupla invisibilidade, ou dupla discriminação: por serem mulheres, por terem relações amorosas com outras mulheres.
Recentemente, soube do lançamento de um livro com testemunhos de mulheres que (con)vivem com o VIH. Foi o “clic” para chegar a esta ideia. É uma forma relativamente simples de chegar a um grande público, de tentar tirar este assunto dos circuitos demasiado fechados da academia ou do universo lgbt, onde, repito, tem o seu lugar. Tem sido feito um trabalho louvável, mas, na minha opinião, temos de chegar a mais pessoas, que geralmente não lêem estudos académicos ou não estão informadas nem sensibilizadas para estas questões.

TL: Quer entrevistar apenas mulheres/lésbicas portuguesas vítimas de discriminação?

All rights © Tangas Lésbicas

HT: Não. Seria até muito interessante obter relatos de mulheres, portuguesas ou não, que vivam noutros países. Porque daria uma perspectiva mais abrangente de como esta realidade é vivida pelas mulheres em diversos países e seria interessante ver se há diferenças, por exemplo em termos de apoios, recursos, políticas de combate à discriminação por motivos de orientação sexual. Enfim, para perceber se há mais vertentes e outras experiências da lesbofobia e da bifobia.

TL: O que considera que pode ser uma situação típica?

 HT: Não sei se haverá situações típicas, talvez mais frequentes, como insultos ou insinuações. Mas a minha hipótese é que haverá bastante diversidade.

TL: Acha que as mulheres/lésbicas têm consciência da maior parte das situações de discriminação?

HT: Esse é precisamente uma das questões que eu gostaria de ver nos relatos que me forem enviando ou das entrevistas que fizer. De facto, muitas vezes, por questões culturais, pela discriminação a que as mulheres se foram habituando, parece-me que as mulheres/lésbicas nem sempre têm consciência de muitas situações de discriminação.

TL: Pode exemplificar com algumas situações?

All rights © Tangas Lésbicas

 HT: Estou a falar de coisas tão visíveis e palpáveis como os insultos, as “bocas”, a discriminação no local de trabalho, na vida social das pessoas, ou em coisas menos perceptíveis como os olhares a que estão sujeitas, o julgamento dos outros pela aparência física, as insinuações.

 TL: Qual é a gravidade que isso pode atingir?

 HT: A heteronormatividade é uma forma de poder presente na vida de todas as pessoas, mas é obviamente mais violenta para as pessoas que têm relacionamentos com pessoas do mesmo sexo, e isso é especialmente notório para as mulheres. O facto de as pessoas discriminarem e se sentirem discriminadas por algum motivo é grave, por razões de orientação sexual é igualmente grave. A constituição portuguesa proíbe a discriminação, no famoso artigo 13.º, mas há ainda muito para fazer para mudar a forma como as pessoas pensam sobre isso, como interiorizam esse preceito.
Desde logo, as mulheres (lésbicas, bissexuais) podem sentir-se postas em causa na sua orientação sexual, sabem que é condenada socialmente, ainda que haja um discurso politicamente correcto. A realidade que enfrentam depois é diferente. E isso leva as mulheres muitas vezes a voltar essa agressão sobre si mesmas, a desvalorizarem-se, a ficar no armário, a ignorar a violência a que estão sujeitas, e que não tem de ser violência física. No limite, pode conduzir à internalização da lesbofobia (i.e., achar que se é merecedora de preconceito e ódio, ter vergonha da sua orientação sexual, desejar não ter esse desejo/orientação sexual). Tudo está concebido, na nossa sociedade, para que a norma sejam as relações heterossexuais e para que a família seja composta por um homem, uma mulher e crianças; outras configurações, como as famílias monoparentais e homoparentais são ainda a excepção e socialmente menos desejáveis. A discriminação retira direitos fundamentais à pessoa, e isso é muito grave. Estou a falar de coisas tão básicas como a igualdade de direitos (o que tem grandes implicações, como por exemplo a maternidade, a parentalidade e a adopção), o direito à liberdade de expressão, o direito elementar de se ser tratada com respeito.

TL: Como surge este tema no seu percurso pessoal e profissional?

All rights © Tangas Lésbicas

 HT: Fiz alguma investigação sobre esta matéria, nomeadamente sobre a violência doméstica entre pessoas do mesmo sexo, que aparentemente não tem muito a ver com isto. Mas só aparentemente. Porque se pensarmos na segunda violência que, neste caso, as mulheres enfrentam se, por acaso, denunciarem às autoridades a situação de que estão a ser vítimas, estamos claramente perante uma discriminação. Essas mulheres vão provavelmente enfrentar agentes da polícia ou funcionários de um tribunal que assumem automaticamente que elas são vítimas de homens. E isto é, obviamente, uma forma de discriminação e violência, via heteronormatividade.
Este foi o meu primeiro contacto, do ponto de vista profissional, com a realidade da lesbofobia. No meu percurso pessoal, obviamente que tenho um contacto, desde há muito tempo, com esta realidade: basta ouvir o que muitas pessoas dizem e pensam acerca das relações entre pessoas do mesmo sexo, como as olham, como falam delas, o que lhes dizem.

TL: Que conselhos poderia adiantar para ajudar as lésbicas a reconhecer e/ou a evitar esse tipo de discriminação?

HT: É difícil e arriscado dar conselhos. Porque cada pessoa tem a sua sensibilidade e a sua forma de encarar as situações. No entanto, é bom saber que há uma lei que nos protege e penso que temos todas o dever de denunciar situações de discriminação com base na orientação sexual. Eu sei que isso pode ser difícil, porque implica enfrentar mentalidades e instituições formatadas de acordo com valores ainda muito arreigados. É importante, no entanto, que as mulheres saibam que não é aceitável serem insultadas ou excluídas por serem lésbicas (ou bissexuais). E estou a falar de uma diversidade de contextos: espaços públicos, grupos, associações, empregos, cuidados de saúde.

All rights © Tangas Lésbicas

TL: O que acha ser necessário fazer, a nível institucional, para acabar com a discriminação?

HT: Seria necessário que houvesse, desde as mais altas instâncias (Governo, Estado) até às práticas individuais, um reforço dos princípios que já estão na lei. Isso era fundamental. A lei não muda de um momento para o outro a mentalidade das pessoas, veja-se o que aconteceu e acontece em relação ao racismo e à xenofobia, por exemplo. Mas dá um sinal importante. É importante que esse sinal seja acompanhado de práticas, sobretudo educativas, que possam diminuir o desconhecimento que alimenta o preconceito e muitas atitudes discriminatórias. É um trabalho moroso, que leva décadas, mas é urgente que seja feito.

TL: Muitas pessoas argumentam que todos discriminamos e que isso é inato, inclusivé para as vítimas de discriminação. Concorda com esse ponto de vista?

 HT: Discriminamos quando ignoramos ou desconhecemos algo acerca do outro. Se isso é inato ou não, não sei. O que me parece é que é um argumento que só serve para desculpar quem discrimina: pode não ter consciência do que está a fazer, mas por isso mesmo é que as pessoas devem ser educadas para perceberem o que é a discriminação e por que razão discriminam outras, sejam elas quem forem. No caso da homofobia e da lesbofobia, muita coisa pode ser feita para despertar a consciência das pessoas para esta realidade e para tentarem perceber o que está em causa, tentando colocar-se no papel das pessoas discriminadas.

TL: Acha que a educação pode evitar que se discrimine e haja vítimas desse tipo de atitude?

HT: É precisamente aí que vejo a grande via para a mudança. Ninguém é politicamente correcto o tempo todo, as pessoas gostam de contar anedotas, etc., mas o que podemos fazer é pô-las a pensar um pouco sobre isso, porque às tantas trata-se de uma prática tão automática que as pessoas nem se apercebem de como podem estar a ser violentas para outras, por exemplo num contexto de escola. Infelizmente, houve um projecto, patrocinado pelo Ministério da Educação, creio, que não foi adiante, por motivos completamente inaceitáveis, na minha opinião. Cheguei a ver cartazes que chamavam a atenção precisamente para a inclusão dos homossexuais, gays e lésbicas, e desapareceram, com o argumento de que eram “demasiado ideológicos”. Isto é verdadeira homofobia e lesbofobia a nível institucional, o que é particularmente grave e revelador do estado das coisas no nosso país. Se não se começa pela educação, estamos mal. E tenho conhecimento de situações, em escolas, em que as coisas correm muito mal, desde logo porque as direcções das escolas e professores se sentem muito incomodados com problemas que tenham a ver com a discriminação. Não sabem muito bem o que fazer, que exemplo dar. Acredito que haja já bons exemplos e que as coisas vão mudando, mas com estes exemplos vindos de cima, não sei o que pensar.

All rights © Tangas Lésbicas

TL: Já entabulou conversações para a publicação do livro?

HT: Sim, já sondei algumas pessoas ligadas a editoras nesse sentido.

TL: Quando julga que estará pronto?

HT: Isso depende muito dos relatos que for obtendo, das entrevistas que for fazendo. Isto é, do interesse que este projecto despertar nas mulheres que se sintam (ou alguma vez se tenham sentido) discriminadas por motivos de orientação sexual ou pelo simples facto de serem percebidas como lésbicas. Sei que tenho de dar algum tempo às possíveis participantes, para tomarem conhecimento do projecto e do pedido, e sei que nem sempre é fácil escrever e falar sobre este assunto na primeira pessoa. No entanto, gostaria, se possível, de ver o livro editado ainda este ano, 2012.

TL: Quer deixar alguma mensagem às leitoras do Tangas Lésbicas?

HT: A discriminação, a lesbofobia é uma realidade que enfrentamos todos os dias. Pode não ser uma coisa muito visível, mas está sempre presente. Penso que devemos denunciá-la, dá-la a conhecer a toda a gente, porque se trata de uma questão de direitos básicos, de cidadania. Para que se possa combater algo que não deve ter lugar na nossa sociedade.

 com biografias de mulheres que (con)vivem com o VIH