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Dar a mão à palmatória. É a melhor expressão para reflectir os meus dias aqui.

A ideia de vir até à África do Sul, tirando obviamente os motivos afectivos perfeitamente justificáveis por e em si próprios, não foi recebida de braços abertos. O que chega a Portugal, deste país, são notícias de homicídios, lutas, problemas raciais. Pois bem, deverão existir, acredito que sim, mas só em algumas mentes a quem a história ainda continua a perseguir.

Vim a imaginar que este país, ou pelo menos Pretória e arredores, se encontraria num patamar ao nível de Deli e São Paulo, cidades onde a sujidade, pobreza, mendicidade, nos afrontam mesmo nos melhores lugares. Cheguei à espera de ver ódios, recriminações e veladas ameaças nos olhos de peles de diferentes cores.

Surpresa, grata surpresa. Este país é grande também na arte de olhar para o futuro. Em paz.

Ruas limpas, tudo muito relvadinho, diariamente regado e cuidado, estradas que parecem pistas de Fórmula 1, trânsito sem problemas, supermercados apetecíveis, parques de estacionamento por todo o lado, restaurantes como nunca vi na minha vida, atitudes gentis, sorrisos, ajudas, cooperação, onde tudo parece encaixar sem esforço.

Outro dia estava a comprar cebolas e um empregado do Spar, assim tipo um Jumbo, veio ter comigo e sugeriu-me que levasse um outro saco, com mais dois quilos e a um preço óptimo. Verifiquei que estava com toda a razão, troquei as embalagens e lá vim eu não sem antes ouvir as promoções de legumes do dia, tudo na maior boa vontadde e sem chatear.

Há três semanas, na bomba de gasolina, demos uma gorjeta boa (para eles, claro, aí teriam nos espancado), o rapaz quando chegou à caixa e verificou o “excesso”, veio até ao nosso carro devolver o dinheiro, que era muito. Imaginam isso na Galp?

Em qualquer caixa de supermercado, banca de jornais, posto de gasolina, restaurante, museu, antes de nos perguntarem o que queremos, perguntam-nos como estamos.

Ontem, quando fui visitar o Parlamento, estacionámos num sítio proibido. Veio um polícia, perguntou como estávamos e disse, correcta e agradavelmente que ali não deveriamos estacionar porque era proibido sendo apenas para camionetas. O engraçado de tudo isto foi quando nos explicou que um outro carro que já lá estava estacionado, estava a fazer uma coisa mal feita e errada. Estava lá o sinal e ele estacionou. Era errado. Mas não pensem em nada de multas, trancas na roda, emissão da inibição de condução, nada disso. Um comentário apenas, em tom baixo, afável, doce. Mesmo a fazer lembrar os açougueiros que andam fardados em Portugal, com o rei na barriga, a multar tudo quanto mexe.

O mais agradável é que aqui ninguém quer nada em troca. As pessoas fazem porque fazem, porque querem, porque é natural, porque é assim.

A convivência é mais fácil. Até eu, que sou um bicho do mato, ou um mono brutus como me chama a minha irmã, na quarta feira passada acabei o dia a distribuir copos de vinho, almondegas e brigadeiros pelos vizinhos, a falar de motas com dois deles, janelas abertas sobre o relvado em frente à casa, com a mais pequenina deles a entrar aqui e a vir brincar com a gata….dela, que também já tem prato aqui em casa.

Estou a gostar desta terra onde tudo é grande. As estradas, horizontes, sonhos, história…..simpatia.

Acho que, em muitas coisas, vou estranhar quando voltar aí.