— Se julga que é fácil ser lésbica às sextas, engana-se.
— De que está a falar?
— Já ouviu falar em alguma Frederica da rua dos Elmos que andasse por aí à solta numa sexta-feira?
— A única Frederica que conheci era um doce de pessoa e desmaiava se lhe matávamos uma mosca na cozinha.
— Está a ver? É isso mesmo que quero dizer: não vai aparecer por aí nenhuma psicopata assassina para agitar as nossas sextas-feiras e fazer-nos voltar a apreciar a rotina podre em que estamos.
— Credo! Isso está mau…
— Nem calcula quanto. Então depois da menina ter mandado descarregar o camião das mudanças, instalou-se  tédio geral.
— Agora a culpa é minha por ter arranjado namorada…
— Bem, tem de concordar que fiquei sem ninguém para embirrar às sextas-feiras.
— Pior para si, melhor para mim. Por que não nos convida para jantar consigo?
— Enlouqueceu? Não há nada que azare mais uma prima solteira do que companhia casada.
— Não seja exagerada. Não queria algum azar à sexta? Esse não lhe serve?
— Pelo amor da santa… Falei de sangue, terror, guincharia. O que tem isso que ver com um jantar morno, com duas primas aos beijinhos e a fazer de conta que não há mais ninguém na mesa?
— Com esse feitio há-de ter muitas amigas…
— Se forem todas como a menina, que vai e vem entre a soleira da minha porta e umas pikenas que brotam do asfalto só para lhe assombrar a vida, dispenso a companhia.
— Ainda não conhece a tal pikena e já está na ciumeira.
— Nada disso. Estava só a ver se me desamparava a loja.
— Pronto, não bata mais na companhia. Vou à minha vida.
— Ahahah…
— Que foi agora?
— A menina não tem vida. A sua namorada não tem vida. O que vocês têm é uma vida que não é de nenhuma das duas.
— Que azeda me saiu a menina, francamente!
— Não é verdade?
— É melhor do que estar para aí às voltas com as sextas-feiras mornas.
— Pensando melhor, fico com as sextas.
— Bom, se mudar de ideias, venha jantar connosco.
— Nem pensar. Já tenho programa.
— Mas acabou de me dizer…
— Se continua aí a debitar a sua sinistra solidariedade, fico com a certeza de que as sextas não são, de facto, para as primas.
— Como queira. Só estava a dizer-lhe que não precisa de ficar sozinha.
— Pois não… A alternativa é ir servir de público ao seu arrulhar com a outra rolinha. Era o que me faltava!
— Desisto.
— Até que enfim.