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Escrevo este post no aeroporto de Madrid, numa escala de nove horas, até chegar a Lisboa. Uns pouquinhos dias depois da data prevista mas sei que me perdoam, tão grande é o vosso coração e também a paciência.

Regresso a Portugal mas já com bilhete de regresso à África do Sul no bolso. Quero voltar, pelo menos por uns tempos, nada de programas a longo prazo, um dia de cada vez já me parece uma sorte e um empreendimento meritório.

Neste últimos dias, conheci um programa de apoio a crianças traumatizadas, chamado Missing Face, instalado na vizinha Suazilândia. Trata-se nem mais nem menos de um sítio onde cada criança tem alguns adultos com quem pode criar laços de afecto e confiar, desabafar, ter ali uma cara, um ombro, um coração amigo. Alguém em quem possam encostar a cabeça no peito e, se não esquecer, pelo menos ter esperança de que as coisas podem vir a ser melhores.

Vi o Mazala, de catorze anos, vive sozinho desde a morte dos pais, tem um casebre imaculadamente limpo e ordenado, veste-se com esmero com o pouco que tem, cria umas cabras e galinhas mas não come os ovos porque prefere que eles sejam chocados para ter mais galinhas e poder comer uma de vezem quando, ou vender a troco de outros bens como sabão. Gostava de ser amado, ter uma familia, trabalhar para a sustentar e tem o grande sonho de envelhecer e saber como pode ser doce ter vivido tantos anos. Vi um grupo de quatro irmãos em que o mais velho, uma criança ainda, toma conta dos mais pequenos, um ainda bebé, vi outras crianças que moram sozinhas e têm medo da noite, dos barulhos lá fora.

Conheci projectos da UNICEF neste país, coisas maravilhosas, inacreditáveis, eu só me perguntava como é que alguém se lembraria de ir para aquelas terras fazer isto, aquilo, ajudar, dar comida, vacinar, cuidar, mimar, amar…

Volto a Portugal, à Europa, ao mundo “civilizado” como muitos lhe chamam, com muito menos paciência para estes garotos que chegam ao final da adolescência e continuam a usar as calças ao fundo do rabo, o boné para o lado, a escrever calão, a falar como javalis, absolutamente desinteressados do futuro, autênticos chulos do dinheiro dos pais, parasitas sociais, incapazes de olhar para qualquer outra coisa que não seja o seu umbigo ou um bocadinho mais abaixo.

As crianças de África são um exemplo para mim, deveriam ser para todos nós. Não têm nada mas não se ouve uma queixa, uma reclamação, uma revolta. Os sorrisos, esses sim, transbordam em cada pequeno rosto e ficam colados a nós e tornam impossível esquecer que todos, seja de que forma for, podemos fazer muito mais.

Vou gostar de conhecer África melhor. Esta África linda, limpa, civilizada, relvadinha, educada, tranquila, mas também a outra, onde os africanos nada mais tem para partilhar que um chá feito de uma qualquer raíz, histórias e sorrisos mas que conseguem o milagre de nos tornar mais humanos, melhores pessoas, mais desprendidos.

Agradeço ter conhecido estas histórias, agradeço sobretudo aos protagonistas principais, aqueles pequenos seres que me ajudaram a ser um bocadinho melhor.