All rights reserved / Tangas Lésbicas

— Pode indicar-me o gabinete da APLP?
— Qual é a finalidade?
— Sou uma lésbica portuguesa e o nosso Primeiro mandou-nos emigrar, mais a todos os outros desamparados da sorte.
— Pode fazer prova dessa condição?
— O que é preciso como prova? Posso pedir à minha namorada que mande um sms. Serve?
— Só se a sua namorada ocupar um cargo político ou público, que lhe permita atestar a sua condição em conformidade com todos os regulamentos locais e comunitários nesse sentido.
— Bem, sendo assim, não pode. É que ela está desempregada, mas ainda está a receber subsídio. O meu é que já se foi e tive de me meter ao caminho.
— Compreendo. Como tenciona então prestar provas do seu estatuto de lésbica politicamente refugiada e em absoluta necessidade de asilo?
— Posso mostrar-lhe o meu passaporte português…
— É um princípio. Pior do que isso só mesmo o passaporte irlandês ou o grego. Também temos de aceitar os russos, da maioria dos países do Leste Europeu e ainda os africanos. É uma autêntica dor de cabeça. Pode ir para aquela fila, enquanto aguarda..
— E o que fico a aguardar, fará o favor de me dizer?
— Que venha a funcionária do serviço de estrangeiros verificar a autenticidade do seu passaporte.
— Muito bem. E depois, que se segue?
— Terá de aguardar na fila seguinte, que é para preencher a papelada para o seu pedido.
— Não posso ir preenchendo já, para ganhar tempo?
— Não se preocupe, pois vai ter tempo de sobra para preencher os papéis todos nas outras filas.
— E que outras filas são essas?
— Temos esta, a dos papéis, a do exame médico…
— Exame médico?
— Claro. Temos de nos assegurar de que é realmente uma mulher e não um homem a tentar fazer-se passar por mulher.
— Até está bem visto. E que outras filas existem?
— A do exame psicológico…
— Também?!?
— Com certeza. Temos de nos assegurar de que é realmente uma lésbica. Ou pelo menos que está a passar por uma fase de homossexualidade que justifique o seu pedido.
— Tem razão. E há mais filas?
— Com efeito, temos a da declaração de intenções sob juramento, para garantir a boa fé das requisitantes; depois fica a da prova de homossexualidade…
— A da quê?…
— Testamos todas as candidatas ao asilo. Têm de passar pelo crivo de três primas sem vacilar.
— Não acredito que temos de coisoetal…
— Mas, com certeza. Não calcula o que por aí aparece a fazer-se passar pelo produto genuíno.
— Acho que a minha namorada não vai gostar nada de saber disso. Acha que devo consultar a minha embaixada a propósito desse procedimento?
— A menina é que sabe. Mas veja lá no que se mete, porque, afinal, pede asilo porque lá pela sua terra não se safa, não é? Além disso, todos os termos e condições destes pedidos são previamente acordados entre todos os estados-membros europeus e devidamente ratificados pelas autoridades competentes.
— Tem razão. É melhor não me esticar…
— Também acho. Além disso, quando vir as primas que a vão testar, tenho a certeza de que vai reformular o seu ponto de vista.
— São assim tão giras?
— Digamos que, quando se trata de política e defesa de direitos, não gostamos de poupar.
— Sendo assim, parece que tenho de ir ao sacrifício.
— Faz muito bem. Não quer saber o que se passa nas outras filas?
— Ainda há mais?
— Claro que sim. A seguir tem as entrevistas para o alojamento. Muito importantes.
— Ai é? Alojam-nos em algum ginásio com tendas dentro, como se vê nos filmes?
— Nem pensar. Isso podia custar-nos um processo feio. Vai fazer uns testes de compatibilidade e, com base nos resultados, faz a entrevista conjunta com os casais ou lésbicas que estão disponíveis para receber as asiladas.
— A sério?
— Se tiver sorte, ainda lhe calha uma família completa.
— Ui… E tem a certeza que o nosso Primeiro ratificou isso tudo?
— Claro. Era isso ou aturar-vos lá na vossa terra.
— Estou incrédula…
— Não esteja. Ele também paga as vossas quotas.
— Paga o quê?
— É de lei: eles pagam os APLP aqui e nós pagamos lá e em qualquer outro país que adira ao programa.
— Que grandes trocas e baldrocas…
— É assim que se fomenta a economia. E os direitos humanos, claro. Faça o favor de tomar o seu lugar na fila de espera.