Helena Correia foi a primeira mulher transformista portuguesa. Começou numa altura em que ainda ninguém falava em homossexuais, quanto mais nos seus direitos. Assumiu-se cedo e pagou a sua frontalidade com a cadeia, no tempo em que a PIDE (polícia política portuguesa criada durante o regime Salazarista) ainda ditava o que se podia ou não fazer. Pagou um preço pela sua rebeldia, mas jamais desistiu. Valeu-lhe o apoio e a ajuda da família, que a livrou de destinos piores.
Hoje, Helena Correia tem uma história para contar. Conheci-a na ILGA, quando a associação dava os primeiros passos e as pessoas ali se juntavam para ajudar no que houvesse para fazer e também para deitar uma vista de olhos em volta, às garotas e garotos que se atreviam a entrar na sede da Rua de São Lázaro.

Amanhã, na discoteca Mister Gay, na Caparica, estreia um espectáculo que é também uma justa homenagem à coragem da primeira mulher que se atreveu a fazer um espectáculo na pele de um homem em Portugal: Helena Correia, ou Lena, como dizem os amigos.

Tangas Lésbicas (TL): O que é um espectáculo de transformismo?
Helena Correia (HC): Perguntas bem. É uma arte como outra qualquer, uma simulação em que nós, mulheres, encarnamos personagens masculinos.

TL: Em que ano começaste a fazer transformismo?
HL: Em 1974, se não estou em erro.

TL: Com que idade?
HC: Era uma menina: vinte e três anos.

TL: Nessa altura as mulheres não se viam nesse tipo de show. Por que razão decidiste fazê-lo?
HC: Para desafiar a nossa condição e a minha postura.

TL: A família estava a par dessa tua actividade?
HC: Sempre. Aliás assumi-me com dezoito anos.

TL: Como conciliavas isso com a tua rotina diária?
HC: Era complicado. Dava aulas e fazia shows. Quase não dormia, mas aguentei.

TL: Aulas de quê?
HC: Português e FIlosofia.

TL: Que modelos procuraste para construir os teus personagens e o teu show?
HC: Vivia-se muito no romantismo e procurava as canções de que mais gostava, porque sabia que o público iria gostar, como as do Gianni Morandi, do Adamo e do Paul Anka, entre outros.

TL: Sentiste que mudaste mentalidades com esses espectáculos que fazias?
HC: Absolutamente, Marita.

TL: Fizeste transformismo por idealismo ou porque querias mais garotas a olhar para ti?
HC: (Risos) Garotas, não precisava. Era bonitinha por natureza (risos). Sempre fiz o que gostava e esta foi mais uma passagem da minha vida, por idealismo. Mas, as mulheres, na época, corriam para me ver onde quer que eu actuasse.

TL: Havia muitas garotas a assistir aos shows?
HC: Noventa e cinco por cento eram mulheres.

TL: Como chegaste a este tipo de espectáculo?
HC: Foi um convite da Guida Scarlatti, que gostou do meu visual. E eu aceitei.

TL: Houve algum episódio engraçado ou marcante que queiras partilhar connosco?
HC: Há, sim. Num dos primeiros espectáculos, um gay idoso veio ter comigo e convidou-me para sua casa. Pensava que eu era um rapazinho(risos). Após o convite dele, no nosso camarim, eu abri a camisa, não lhe dando qualquer resposta verbal. Ele corou, pediu desculpa e deu-me um abraço (risos).

TL: Que é feito do transformismo feminino hoje?
HC: Depois de mim, apareceu a Betty Santos, uma excelente transformista, profissional, com um pisar de palco muito seguro. Estive a trabalhar com ela no Mister Gay, Margem Sul.

TL: Quem gostarias de ver a fazer um show deste tipo?
HC: Além da Betty, gostaria de qualquer mulher que possa ter a mesma coragem que nós.

TL: Achas que a Manuela Ferreira Leite tinha êxito nesta linha de trabalho?
HC: (Risos) Se ela dá outros espetáculos, por que não?

TL: E a Assunção Cristas?
HC: Essa talvez. Proponho-me ensiná-la, como ensinei alguns travestis na época. Por exemplo, o Carlos Castro, que fazia de Miss Piggy no Rocambole, comigo.

TL: E a Assunção Esteves?
HC: Essa seria uma excelente jogadora de futebol (risos).

TL: Qual é a mulher portuguesa/figura pública mais sexy actualmente?
HC: Resposta difícil, mas acho a Fernanda Serrano uma lindeza (risos).

TL: Se te dessem oportunidade de voltar atrás no tempo, repetias o teu percurso? Que mudanças farias?
HC: Em certas coisas sim, tal como esta e o facto de ter sido presa por lesbianismo. Não me arrependo de nada. Mas noutras mudava, sim. Mas não quero comentar. Dói demais!

TL: E hoje, Helena, és uma mulher feliz?
HC: À minha maneira, sou.

TL: Já pensaste em fazer um show para o Tangas?
HC: Nunca pensei. Mas podes pensar nisso (risos).

TL: Que futuro vês para a comunidade lgbt?
HC: Pelo que leio, vejo e oiço, vamos ter um futuro, sim, a longo prazo. Este País tem de chegar lá. Afinal, todos somos filhos de Deus e muito já nós conseguimos!