— Que vai fazer este fim-de-semana?
— Arrumar a casa e aproveitar para estar com a minha gatinha. Tenho tantas saudades dela…
— Mas vê-a todos os dias. E a dona Clarinha não foi aí esta semana?
— Claro que foi. É a minha salvação. Nem sei o que faria sem ela.
— Então para que vai arrumar a casa outra vez?
— Não lhe contei, pois não? Tenho cá gente a jantar amanhã.
— Gente? Isso é sinónimo de prima em vias de se tornar namorada?
— Não seja tola. Ela tem uma cadela. Qualquer entendimento é praticamente impossível.
— Com ou sem animais de estimação?
— Está a ver-nos existir sem os nossos bichinhos?
— Então isso não é um jantar. É um anúncio de uma tragédia. Ligue-me quando isso lhe passar.
— A menina tem programa melhor para me propor?
— Qualquer coisa sem hormonas primaveris às carradas é muito mais aceitável. Divirta-se.
— Posso ligar-lhe depois?
— Não ligue, porque vou estar em modo de segurança, a ver o Beijando Jessica Stein.
— Já viu isso dezenas de vezes.
— Também já vi a história dos seus jantares muitas vezes. Só que o DVD acaba quando eu desligo o aparelho e a menina não se cala durante dois anos.
— É mesmo horrorosa.
— Foi por isso que me deu com os pés, lembra-se? Mantenha essa imagem minha no seu pensamento, por favor.
— Nem sei porque continuo sua amiga.
— Deve ser porque sou a sua única ex que ainda a atura.
— Pronto. Só lhe ligo se a coisa der para o torto.
— Mais tarde ou mais cedo, dá tudo para o torto. Vou ali comprar uma garrafinha de gim, só para prevenir.
— Credo! Até parece que tenho o hábito de afogar as minhas mágoas em álcool.
— Não só parece, como a páginas tantas, tresanda.
— Nunca mais falo consigo.
— Nesse caso vou ver se arranjo alguém com quem festejar e partilhar a garrafinha.
— Nem pense em festejar seja o que for sem mim!
— Ó deuses…