— Tem planos para esta noite?
— Tenho.
— Precisa que lhe faça companhia?
— Deus me livre!
— Vai abandonar, finalmente, o seu período de celibato?
— Nem pensar.
— Mas devia. Já começam a perguntar por que razão a menina está há tanto tempo sozinha.
— É fácil: primeiro, porque tenho mau feitio; segundo, porque não estou propriamente sozinha. Vou estando, quando não saio com ninguém.
— Isso quer dizer que há esperanças de que alguém lhe amanse a má disposição?
— Não.
— Vá lá, confesse que gostava de voltar a sentir uma grande paixão.
— Nem por isso.
— Porquê?
— Porque não e porque não me identifico minimamente com essa mania de fazer tudo a dois. Que pesadelo!
— Não me diga que não gosta de ter companhia para fazer uma mão cheia de coisas…
— Claro que gosto. Mas isso tenho sempre que quero e é muito diferente de ter uma pessoa dentro de casa a reivindicar permanentemente o direito a saber e participar de tudo da nossa vida. Isso é um inferno anunciado. E um desastre, possivelmente, atendendo ao rancor que isso provoca em qualquer pessoa com um mínimo de auto-suficiência.
— E o companheirismo, a compreensão, o facto de ter ao seu lado alguém sempre pronta a apoiá-la?
— Ó meu deus… E os dois pés assentes no chão não me chegam? Quem é que disse que eu preciso de aplauso para tudo o que faço? Para o companheirismo e compreensão tenho os amigos, a família e quem mais achar que concorda comigo.
— Há-de concordar que é diferente…
— De quê? De ir uma ou outra vez para a cama com alguém que nos atrai? Com quem não temos de passar pela dolorosa experiência de repetir a dose até não nos podermos ver?
— A menina hoje está cáustica.
— Pelo contrário. É uma questão de amor-próprio e de confiança no que somos. E de aprendermos a não usar muletas para justificar a nossa vida e os nosso actos.
— Já reparou que o seu amor-próprio tem tendência para arrasar o dos outros?
— Só reparo no fraquíssimo estado de auto-estima de alguém que se dá ao luxo de achar que eu a arraso só porque me acho o máximo.
— O melhor é voltar amanhã para saber como correu a sua noite.
— Venha tomar o pequeno-almoço. Vou fazer os croissants de que a menina gosta.
— Não fossem essas suas cortesias e já me estava a ver a ser sugada pelo tornado do seu amor-próprio…
— Amanhã explico-lhe da diferença entre amor-próprio e narcisismo. Agora vá telefonar às suas amigas co-dependentes, que eu tenho de me preparar para a minha noitada.