— Que está a ler?
— Não estou a ler, deixe-me em paz.
— Para que é o livro então?
— Era para não me interromper com perguntas, mas está visto que não resulta.
— Traz um livro para a praia e finge que está a lê-lo?
— Claro. Estou a fazer a mesma figura que as outras primas todas. E amanhã trago outro livro, para parecer que já li este e estou a devorar mais um.
— Não pode fazer de conta que se está a bronzear como as outras pessoas?
— Deve estar a sonhar… Já viu aquela pikena ali?
— A que está a passar protector solar?
— Essa mesmo. Está à horas naquilo e a beber água. Apanha sol, passa o protector, bebe água, apanha sol. Está naquilo desde manhã. Acha que eu quero fazer a mesma cena de neurótica compulsiva? Prefiro fazer de conta que leio.
— Pode, simplesmente, ir dar um mergulho e vir dormir uma sesta, como o resto das pessoas.
— Só pode estar a brincar… Não me vou meter na água ao mesmo tempo que umas dezenas de primas em topless, que provavelmente vão aproveitar para esvaziar a bexiga na água enquanto se medem umas às outras.
— Que horror! De cada vez que caio na asneira de ouvir a sua versão negra da vida tenho de repensar por que raio me dou ao trabalho de alimentar a nossa amizade.
— Quer a resposta a isso, também, ou basta-lhe concordar comigo e deixar-me em paz, entregue à minha forma de veranear?
— Fique lá com o livro e a leitura de faz-de-conta!
— Faz-de-conta não. Julga que sou parva? Só trago livros que já li, não vá dar-se o caso de ser interpelada por uma prima intelectual que queira fazer-me um exame de admissão à biblioteca dela.