Sábado, 9 de Outubro de 2004
Desperdícios

Dá Deus as nozes a quem não tem dentes e é bem verdade. Os homens hetero são um exemplo disso, por sinal, bem triste. Desperdiçam o que têm por garantido e não se dão conta. Ou não querem dar-se conta. Encontram as pessoas que preenchem as suas vidas, podem ostentá-lo com toda a liberdade, mas bastam as exigências de uma carreira ou de um estatuto para que tudo passe para segundo plano na sua vida. A escolha é clara: não se deita tudo a perder para se ir mais cedo para casa, para preparar um jantar romântico, para ter tempo de fazer um programa especial com a pessoa que é o centro das suas vidas. É muito mais importante causar uma boa impressão a um chefe ou a um colega de trabalho do que à mulher ou namorada que ele sabe que já tem dele uma boa imagem.

As lésbicas não se dão a esses luxos. Um olhar, um toque, um sorriso, tudo é aproveitado para manifestar amor, carinho, sensualidade. Não te posso dar um beijo no meio da rua, não posso dançar contigo quando saímos à noite com os amigos, não posso ter o braço por cima dos teus ombros quando andamos a passear, mas os meus olhos, as minhas palavras, os meus movimentos, a minha atenção e tudo o que eu faço é para ti. Porque to mostro, porque faço questão de que saibas, de que sintas que, mesmo num meio que não é o nosso, onde ninguém nos concede a liberdade que qualquer outro casal tem, nunca me esqueço que estás ao meu lado.
O pecado dos heteros é terem tanto e não saberem aproveitar. É terem tudo de mão beijada e não fazerem o suficiente sequer para o manter. É repetirem, todos os dias, a si e aos outros, que não têm tempo, que ainda não surgiu a altura certa, que é preciso clima, que até se esquecem, que hão-de arranjar tempo para tudo isso, mas não hoje, não agora, não quando o mundo os chama e eles têm de ir a correr. É o mundo deles, feito à sua imagem e semelhança, chama por eles e é sempre uma questão de vida ou de morte. Menos para quem morra de amores por eles.

Não basta amar. É preciso saber e parece que todas as dificuldades que as lésbicas têm, à partida, por não poderem tanto, não terem tanto, as predispõe a aproveitar muito mais, a amar com mais intensidade e melhor. Com muito mais sensualidade, com mais subtileza, com mais engenho, com mais imaginação. Porque eu preciso de imaginação para encorajar, animar e aconselhar as amigas hetero que se lamentam no meu ombro e isso me faz sentir o desperdício e o desespero de mulheres com tanto para dar, sem ter a quem. Como explicar-lhes que os homens de quem gostam deviam sentir e agir como as mulheres lésbicas? Como dizer-lhes, sem as magoar ainda mais, que uma lésbica, com uma carreira, muitas vezes com filhos e netos e sem mais ninguém com quem partilhar o lado responsável e mais pesado da vida, arranja sempre tempo para mimar, surpreender e agradar à sua namorada?

publicado por Tangas às 03:11