Há quatro anos, algumas primas com sotaque decidiram lançar uma chancela dedicada à literatura lésbica, com tempero: a Editora Malagueta.
Laura Bacellar e Hanna Maryam Korich, as intrépidas estrelas do projecto, são as entrevistadas do Tangas. O nosso objectivo é compreender o que poderá levar duas mulheres aparentemente sãs a arregaçar as mangas e a atirar-se para o abismo desconhecido dos leitores de histórias de lésbicas.

Hanna Maryam Korich e Laura Bacellar, as editoras com picante

TL: Laura Bacellar, pelo que apurámos, antes de abraçar este projecto já tinha suficiente experiência editorial para saber que ia ter de escalar uns quantos everestes, se quisesse levá-lo a bom porto. Quer dizer-nos com quantos motores de alta potência equipou a sua nau para a tarefa?

Laura Bacellar: Pois é, eu tinha experiência por ter sido a responsável pelo selo editorial Edições GLS, que comecei em 1998 e por onde lancei 35 títulos explícitos, positivos e para cima, para a comunidade lgbt. Só que eu sempre senti que 1) as lésbicas ficavam sempre mais na obscuridade que os gays e as trans, apesar de eu ter cuidado de equilibrar os lançamentos para homens e mulheres; e 2) eu percebi que os canais tradicionais de venda de livros – vendedores, distribuidores, livrarias – não funcionavam muito bem para minorias que nem sempre querem se assumir para comprar algo de seu interesse.
Ou seja, apesar de ter publicado muitos títulos que acho muito importantes para a informação e a auto-estima das minorias sexuais, fiquei achando que faltava algo mais ousado e específico para lésbicas.
Quando a Hanna aparece na minha vida disposta a se aventurar nessa maluquice, nos lançamos.
Está sendo um bocado mais difícil do que eu imaginava, confesso. A homofobia internalizada, em especial das mulheres, faz com que desconfiem, demorem, não procurem livros que são de seu total interesse. É um trabalhão convencê-las de que os romances são bons, divertidos, interessantes! Que os livros de não-ficção também são pertinentes e ajudam a nos posicionarmos numa sociedade preconceituosa.
As que tomam coragem e experimentam em geral gostam. Gostam muito, temos até um grupo de meninas super fãs que se intitulam malaguetes, hehehe. E nossas escritoras têm fãs declaradas também. Karina Dias, autora de Aquele dia junto ao mar e Diário de uma garota atrevida é uma celebridade em alguns meios sapáticos.
Só que falta um tanto ainda para termos nosso bestseller lésbico, a Sarah Waters brasileira, digamos, que faça todo mundo correr para lê-la, se encantar com a história e terminar achando que lesbianismo é algo natural, afinal de contas, que não merece a energia que tanta gente gasta tentando escondê-lo.

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Hanna (à esquerda) e Laura (à direita), num sarau na Casa das Rosas, São Paulo

TL: Hanna Maryam Korich, apesar do boato que a situa numa aula de Cabala quando teve uma epifania sobre a aventura Malagueta, quer dar-nos a sua versão do acontecido?

Hanna Maryam Korich: Sou advogada e me graduei também em Comunicação Social. Como nunca aguentei a caretice do meio jurídico, e conto com certo talento para as artes dramáticas (afinal sou judia), acabei me tornando atriz também, quer dizer, regularizei algo que já fazia parte da minha personalidade. Depois de idas e vindas, arrombei o armário, me assumi lésbica publicamente e, junto com a Laura e algumas mulheres, fundámos a Brejeira Malagueta em 2008.  Os livros são fundamentais para todas/os, ampliam o conhecimento e os horizontes. Ampliar a cultura lésbica através de livros para mim significa aumentar a visibilidade das homossexuais, para que possamos ser aceitas pela sociedade e por nós próprias.
Confesso que foram os livros que me ajudaram a ter compreensão de mim mesma. Pensando na minha trajetória, entrei no projeto da editora para que outras lésbicas tivessem a mesma oportunidade.

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A assistência na Casa das Rosas

 TL: Laura Bacellar, o que acha mais apetitoso — as primas que lêem (devoram…) romances lésbicos, ou as que os escrevem? É verdade que as autoras de literatura lésbica têm tendência para escrever as aventuras que gostariam de protagonizar? Ou é um pouco mais complexo do que isso?

Laura Bacellar: Eu gosto das autoras, acho que têm uma conversa muito interessante. A Lúcia Facco, por exemplo, que é autora de variados livros lésbicos, inclusive Frente e verso, em parceria connosco, é um charme só. Inteligentíssima, até as meninas de 20 aninhos se encantam com ela, hehehe.
E claro que aquelas tramas todas têm que sair de alguma experiência pessoal, certo? A Karina Dias exala malandragem carioca, a Marina Porteclis de fato passou a adolescência em um engenho de cana-de-açúcar, a Lara Orlow é mesmo uma cigana lésbica. As histórias que elas criaram são reflexo do que viveram e do que fantasiam.

TL: Hanna Maryam Korich, com a sua formação jurídica, acha que a invisibilidade lésbica e das mulheres, na generalidade, é na verdade uma excelente forma de privar metade da população mundial da sua quota parte de direitos e da gestão do património histórico, cultural, social e económico do planeta? Acha que conferimos demasiada importância ao lado masculino do poder e nos esquecemos, também aí, de arrombar o armário? As lésbicas com sotaque brasileiro também têm medo de ser consideradas feministas (as portuguesas acham, regra geral, que o feminismo é um papão ainda maior do que o lesbianismo)?

Hanna Maryam Korich: Estou cansada de ouvir falar em articulações, conversas, pactos, negociações e parece que só uma parcela do judiciário brasileiro tem abraçado positivamente as causas homossexuais, com decisões favoráveis em várias instâncias, mas isso não basta para termos justiça e visibilidade – lésbicas e gays.
No Brasil precisamos fazer valer o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, criminalizar a homofobia e garantir proteção jurídica às uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, e total proteção contra ataques homofóbicos.
O resto… não interessa. Para que possamos ter um mundo livre e justo há ainda muito por fazer. Pois só pode haver liberdade e democracia onde não existam grupos discriminados.

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Mais primas com sotaque, com Hanna e Laura

TL: Laura Bacellar, pode dizer-nos o que faz para divulgar os livros da Malagueta? Como chega até às primas brasileiras e como tem vindo a evoluir o vosso trabalho de edição? Quantos títulos tem já a Malagueta? Quantos mais num futuro próximo?

Laura Bacellar: a Malagueta tem 10 títulos no momento, o que é pouco mas nós fazemos o máximo para divulgá-los. Eu acredito que é melhor publicar em pequena quantidade e fazer um esforço maior para o livro chegar à leitora. No nosso caso usamos a internet com um site (www.editoramalagueta.com.br), o facebook e o programa As Brejeiras. Fazemos também eventos a cada mês que propiciam às mulheres interessadas entrar em contato com a cultura lésbica, seja através de saraus, lançamentos, apresentações, discussões temáticas e até uma feira do livro lgbt. A gente acredita que a mulherada precisa entender como é bom ter locais, ilhas mesmo, em que a homossexualidade seja não só aceita como falada, explicitada, celebrada, analisada, festejada.

TL: Hanna Maryam Korich, o Tangas gostaria de contar com uma artista/jornalista tão multifacetada como a Ângela/Hanna Frog/Korich. Acha bem integrar a equipa do blogue com as suas ideias e entrevistas? (Acho que as primas daqui adorariam o reu contributo.)

Hanna Maryam Korich: Que convite bacana! Mas vou declinar neste momento. Quem sabe no próximo ano. Estamos batalhando para manter a Brejeira Malagueta e precisamos um pouco mais de tempo e dedicação…
Falei com a Laura que topou ceder as imagens dos programas gravados de Ângela Frog para o seu maravilhoso blogue. Que tal ? É só colocar no ar e tchan!!!!