tangas-desempoeirada

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— Para que é que a menina quer uma prima desempoeirada?
— Não é para fins pessoais, esteja descansada.
— Então para que é?
— Para governar o País, claro.
— O que é que isso tem de claro?
— Repare: em primeiro lugar, essa gente não se assume, coisa que uma prima é perfeitamente capaz de fazer.
— O que é que não assumem?
— Que são aquilo que toda a gente sabe que eles são, incluindo a menina, que está aí a fazer-se de novas e que sabe tão bem quanto eu, eles e toda a gente, o que são. Os políticos nunca saem do armário, é um facto.
— E acha que a prima sai, ou entra a correr quando se vir no poleiro?
— Com as outras primas todas prontas para fazer um pé de vento se ela não assumir? Está a brincar, não está?
— Não sei… Muitas primas também têm muito medo de se assumir.
— Para isso é que serve a discriminação…
— Desculpe?
— Discriminação, separação, dividir para reinar. Entende?
— Não sei se a estou a seguir.
— Passo a explicar: arranja-se a prima desempoeirada, que pode ser assim como aquela ministra das finanças mal encarada, a meio caminho entre prima-tia e camionista, cujo nome envolvia um produto lácteo…
— A Manuela?
— Sim, essa. Depois diz-se-lhe que as primas não a gramam e, às primas, diz-se que ela lhes tem raiva; aos primos diz-se que ela os adora e, ao governo, que ela é corrupta. Continua a seguir-me?
— Com toda a atenção.
— Muito bem. A seguir arranja-se forma de, alternadamente, ela fazer as pazes com parte das primas e parte do governo e, aos primos, contam-se todo o tipo de histórias para alimentar a incerteza.
— Não sei se vou ser capaz de continuar a segui-la.
— Não se preocupe, porque também não interessa nada; a confusão é uma aposta essencial neste processo todo. O que queremos é que o governo goste primeiro dela e a chame a governar; depois dela lá estar, alimentamos os boatos e as confusões. Quando tudo estiver bastante enredado e impossível de seguir, arranjamos assim uma coisa estúpida, do género não és mulher nem és nada, para ela se encher de brios e assumir que está no governo para roubar como qualquer outro. Com um bocado de sorte e fomentando bem as diferenças entre políticos, primas e primos, anda tudo à batatada e estabelece-se um novo paradigma.
— Qual?!?
— Até as primas desempoeiradas se deixam corromper por osmose num governo; logo, não há governo sem corrupção. Portanto, para eliminar a corrupção é preciso eliminar os governos. Chegou a época de eliminar todo e qualquer tipo de governo.
— Está louca! E como é que nos governamos sem governos?
— Tal e qual como agora: desgovernadamente. A vantagem é que isso é integralmente assumido.