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— Não é que chamaram a polícia?
— Onde? Porquê?
— Por causa das pikenas do prédio ao lado.
— Então? O que aconteceu?
— Parece que brincam de mais…
— Brincam? Como assim?
— Aquelas coisas normais que fazem parte da vida de casal e que as pessoas deixam de fazer com o passar do tempo. Incomodam a vizinhança…
— Pois é. A construção já não é o que era.
— Um sinal dos tempos, é o que é. Não tarda comercializam máscaras para abafar a sensualidade.
— Que exagero…
— Deve ficar mais barato do que alugar um celeiro com palha para praticar fora do raio de audição dos vizinhos.
— Convenhamos, não é agradável ser obrigado a participar da intimidade dos outros.
— Também não é agradável não poder fazer as coisas que as coelhinhas fazem naturalmente em casa, só porque a maioria das pessoas já se esqueceu do que é bom.
— Queira ver o que a menina fazia se as pikenas morassem aqui ao lado.
— Punha-lhes um bilhete na porta: “Tenho crianças em casa que começam a acreditar que as abelhinhas a polinizar flores provocam pesadelos.”
— Muito engraçada…
— Ou: “Vivo do rendimento social e não tenho dinheiro para comprar tampões para os ouvidos.”
— Tenho a certeza que os vizinhos fizeram isso mesmo.
— Acha mais razoável chamar a polícia?
— Acho que os vizinhos tiveram, pelo menos, a oportunidade de agir em conformidade com as suas frustrações e empatar as fadas em grande estilo.
— Coitadas das fadas…
— Dê-lhes tempo, que também elas passam para o lado das frustrações.
— Santa Abacate lhes valha.
— Ámen.