tangas-primas-zangadas

— Voltou para o sofá?
— Estou a pensar.
— É uma ocupação natural, não se preocupe.
— A menina acha que eu só escrevo aqui quando estou zangada?
— Disseram-lhe isso, foi?
— Foi. Acha que é verdade?
— O que eu acho é que não deve perder muito tempo com as opiniões dos outros. Somos todos muito opinativos sobre tudo.
— Mas acha que é verdade?
— Sim, de certa forma.
— Como assim?
— Então: esta coisa do militantismo, dos grupos de protesto e das causas surgem sempre porque pensamos que alguma coisa não está certa. Concorda?
— Concordo.
— Quando não concordamos com uma coisa, lá vamos nós tentar mudá-la, não é? Especialmente se a consideramos injusta. E lá vem a zanga, em maior ou menor dose, conforme nos sentimos mais ou menos compreendidos. Por isso, acho que sim, que nos zangamos sempre um bom bocado quando tratamos de repor a justiça.
— Hum…
— Com tanta injustiça neste mundo, andamos sempre um bocado zangados, não acha?
— Está a insinuar que cultivamos zangas?
— Até temos uma cultura em que estar zangados com montes de coisas é ser sério e responsável.
— Nisso tem toda a razão. Mas tangas são tangas…
— Tangas, humor, piadas, são zangas com verniz de boa disposição. Por baixo há sempre uma zanguinha inicial.
— Hum… Vou fazer uma sesta para ver se me passa a zanga.
— Faz muito bem. Chegue-se para lá um bocadinho para ver se a sesta chega para as duas.