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tangas-pagu

— Está a ver aquela coisa azul e branca do fêquêpê?
— Estou a ver e nem acredito…
— Pois é. Bem me chegou a tentação de lhe oferecer uma camisola do zepórtingue, mas como é o aniversário dela, não quis fazer-lhe a desfeita.
— O aniversário foi ontem…
— Bem sei, mas ainda não me atendeu o telefone. Se berrar daqui pode ser que ela ouça.
— Pode estar surda. Estamos todas a ficar mais velhotas.
— Paguuuuuuuuuuuuu!
— Pagu na Tanga, devia ser…
— Ou na Tanga com a Pagu?
— Como preferir. A ver se pega nas crónicas outra vez.
— Acho que está a ficar preguiçosa e com dificuldade em juntar as letrinhas.
— Quero ver se tem lata para lhe dizer isso na cara.
— Ainda se lhe visse a cara…


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Provavelmente não deveria escrever esta crónica hoje. Estou cruel, ácida, transpiro ódio, incapaz de um sorriso ou sequer de um esgar de simpatia pelo mundo.
Soube hoje de manhã que a Nancy, aquela moça que me fez as trancinhas e que estava grávida de seis meses, ficou desde ontem no hospital, a sangrar, sem um banco sequer onde se sentar, durante horas a fio sem comer, beber, qualquer atenção médica, cuidado, palavra amiga, nada. Enquanto o sangue lhe escorria pelas pernas abaixo, alguém que passou deu-lhe um comprimido para as dores (que dores??) e mandou-a para casa. A sangrar não podia ir. Ficou, sozinha…
Na madrugada de hoje, o bebé nasceu num corredor, saiu de dentro dela ainda na placenta mas vivo, a mexer-se, por certo pequenino, aflito, mas vivo. Os médicos ou enfermeiros que viram “aquilo”, embrulharam num trapo velho e sujo que estava ali por cima de qualquer coisa e atiraram para o lixo. A moça reclamou, disse que o filho estava vivo mas a resposta foi que aquilo não sobreviveria.
Sem explicação possível para uma barbárie dessas tentei pelo menos, não entender uma vez que não há como, mas obter respostas para tanta crueldade. A explicação foi que além dos hospitais públicos serem maus, a moça ainda tinha contra ela o facto de ser do Zimbabué e pelos vistos aqui não gostam de “estrangeiros”. Quis saber mais, perguntei se o desinteresse teria sido por ela ser negra. Que não, que todos os médicos e enfermeiros eram negros mas que os mesmos são muito racistas para com negros de outros países africanos.
Mas não foi só. Enquanto a moça sangrava no hospital e se debatia num sofrimento que não conseguimos imaginar, o marido que não só não a levou ao hospital como nem sequer foi lá vê-la nem saber notícias, nem tomou conta do outro filho com três anos, levava outra mulher para casa deles e anunciava à vizinhança que a Nancy quando regressasse teria que arranjar outro lugar para ficar.
Felizmente, uma amiga minha sul africana, branca, tem um coração maior que ela e está neste momento no Hospital onde se passou este triste caso, a exigir todos os nomes dos responsáveis, depois disso irá ao departamento da polícia apresentar queixa, escreverá uma carta a todos os jornais do país, fará tudo que puder para ajudar. A isto chama-se solidariedade.
Porque a pessoa para quem a Nancy trabalha, senhora de “raça superior” — ahhahahahha — não está nem um pouco interessada em fazer nada. Quando recebeu o telefonema da minha amiga a pedir ajuda à filha dela que é uma advogada que ganha milhões por ano, a resposta foi: não temos tempo para essas coisas.
Senti o coração rasgar quando soube tudo isto e todas as lágrimas que convulsivamente derramei algum tempo depois, não sei por quem foram choradas. Pela Nancy, de certeza, por aquele bebé que nunca saberemos se podia ter sobrevivido mas que foi assassinado por técnicos de saúde (????), pela indiferença, pela desumanidade, sobretudo pela impunidade que se generalizou até ao assassínio e que permite que coisas como estas continuem a acontecer, por aquilo em que o mundo se transformou, por nós, por mim, pela intolerável sensação de impotência perante tanta coisa.
Pela minha parte, tentarei fazer alguma coisa, deixo aqui a minha palavra que o farei.
Se vão resultar estas tentativas? Não sei mas sentir-me-ia igual a quem deita bebés enrolados em trapos no lixo, se pelo menos não tentasse fazer alguma coisa.
Outra história desta África tão peculiar: ontem enquanto jantava numa Guest House com um pequeno grupo de portugueses, chegou um dos hóspedes, polícia de elite, que está a fazer uma formação qualquer aqui em Pretória. No final da conversa e bem bebido, acabou por falar do quanto respeitava a mulher, que a amava muito e que por isso “apenas” dormia com outras mulheres uma noite. Nada de mensagens por telefone, nada de mails, nada de bilhetinhos, nada disso. Cama e mais nada. Tudo isso pelo profundo amor, devoção e respeito que tem pela sua mulher com quem é aliás muito feliz.
Terceira história: Estou a ler e recomendo vivamente “O Rio Sangrento”, um livro sobre a história do Congo. Ou, como afinal de contas tudo se passa neste continente que apesar de permanecer subdesenvolvido, consegue o grande milagre de continuar a subdesenvolver-se.
Tangas, podes tirar este final, mas hoje apetece-me mesmo: que se foda o mundo.


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Pois é minhas queridas amigas, de vez em quando tenho estas coisas com as viagens. Acontecem coisas subliminares e… Fico em terra.
Na última sexta feira, estava eu de mala feita, vestida e calçada, que é coisa que raramente faço por aqui, prontinha para embarcar, quando eis que me telefona a pessoa encarregue de me tratar do visto para eu tentar ficar por aqui uns tempos, a dizer que tinha good and bad news.
As más notícias era que no Departamento de Estrangeiros lhe tinham dito que precisava de mais uns dias de intervalo entre uma coisa e outra e que portanto provavelmente de nada adiantaria meter a papelada agora.
As boas notícias nunca cheguei a saber, mas creio que tudo se baseava na reflexão profunda da dita senhora, que me garantia a pés juntos que “tudo acontece por um motivo”. Tentei descortinar um que fosse mas o único que encontrei foi ficar 140 euros mais pobre que foi quanto tive que pagar para mudar a minha viagem.
Bom, mas tudo isto teria um outro peso, não tivesse eu a sofrer de dores de cabeça e comichões no coro cabeludo desde o anterior domingo, dia em que depositei a minha cabeça nas mãos de uma prodigiosa cabeleireira negra, que me garantiram fazer as melhores trancinhas de Pretória. Foram cerca de seis horas de puro sofrimento e por várias vezes pensei que estava a ter um filho tantas eram as dores, os arrepios, a vontade de me matar pelo que estava a sentir. Quando depois de uma eternidade lhe perguntei com ar esperançoso quantas trancinhas faltariam ela respondeu calmamente que talvez uma sessenta, setenta, ou até mais.
Doía-me também vê-la grávida, em pé, durante todo aquele tempo. Sugeri várias vezes que ela descansasse uns minutos mas ela permanecia fiel ao propósito de puxar até ao humanamente possível, todo o meu coro cabeludo.
Mas não era tudo. Tinha levado a mota e portanto havia agora que enfiar um capacete na cabeça e só Deus e eu sabemos como o consegui colocar sem grande gritaria.
Na hora de deitar a coisa piorou já que parecia que a almofada tinha pregos. Além de que dormir com um barrete de pirata me parecer assim a modos que estranho mas havia que não estragar o penteado pois o regresso à familia estava por dias.
Durante toda a semana, “alguém” foi melgada todos os dias para compor as trancinhas, já que alguns cordelinhos caíam e era preciso manter tudo como novo. Seca total.
Bom, depois de todo este esforço, vocês conseguem imaginar como fiquei quando me deparei com um adiamento de 11 dias até Portugal. Que se lixem as tranças. Arranquei todos os cordelinhos com um sorriso sarcástico na boca e atirei-me para a banheira, onde rapidamente o meu cabelo se soltou e ficou “normal”.
Serviu para ver que experimentar coisas diferentes não faz mal nenhum, não morde, não complica, não stressa. Gostei, mas acho que não repetirei. O mais engraçado foi ver a reacção das pessoas. Enquanto os negros adoraram, perguntaram quem fez, mexiam, gostaram mesmo, os brancos mantiveram uma atitude mais comedida como se não entendessem muito bem como uma branca podia desejar ter um cabelo à negra. Foi óptimo. Acreditem.
Agora uma bad new: já tinha comprado o biltong para a Tangas. Será que se estraga?
Vá Tangas, se prometeres fazer trancinhas levo mais um pacotinho… rsrss
Saudades daqui de África.
Abraços para quem tem paciência para continuar a ler estas crónicas do mundo.


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Muito já se falou das sete maravilhas do mundo e como se essas não chegassem, elegeram-se agora as outras sete mas estas do mundo moderno. Pois que sejam.
Das invenções do homem também já muito foi dito, publicado, reflectido, questionado,  posto em causa,  gabado, etiquetado de fundamental.
Pois sim, está tudo muito bem, mas na minha modesta opinião, podem de lá vir os jardins suspensos, as pirâmides, os templos, os colossos, os mausoléus, todos a que queiram chamar maravilhas que, para mim, a verdadeira maravilha não foi nem sequer posta à votação.
A invenção da roda, do fogo, do telefone, da penicilina, da relatividade, do electrão e do protão sempre atrás um do outro, o iPhone, o avião, etc., etc., não chegam nem de perto nem de longe à maior e melhor invenção da humanidade, sendo que apostaria a cabeça ter sido uma  mulher a descobrir este fenómeno.
Eis, nem mais nem menos: O Tampão.
Desde que me lembro de quando comecei a ver as maravilhas do mundo, foi óbvio que o tampão alcançou sem qualquer dúvida ou concorrência, o primeiro lugar destacadíssimo. Muito longe e é só porque gosto muito, vem o avião mas no pódio não cabe mais nada face ao valor do medalha de ouro.
Odeio pensos, mesmo que disfarçados em saquinhos cada vez mais pequeninos, de cores mimosas, a dizer que são finos, invisiveis, tem asas, abas, são para o dia, para a noite, enfim… Percebo tanto ou tão pouco do assunto que há dias pediram-me para ir comprar e eu tive que levar o pacotinho de casa para não meter água. É que a variedade ocupa quase um corredor de supermercado.
Vem esta conversa toda a propósito do tampão sul-africano. Na altura em que foram necessários, fui ao supermercado, farmácia, sítios prováveis de encontrar os internacionais OB. De nada me valeu procurar e muito menos perguntar. Uma negra gigante meteu-me duas caixas na mão e disse que era aquilo. Olhei desconfiada, mas o nome, Lil-Let,s com uma margaridinha branca em baixo, deixou-me mais tranquila. Parecia fofinho. Por cima dizia que foram desenhados por uma ginecologista. Hum… Parecia bom, feito por quem sabe do assunto. Diziam também expandir-se suavemente de forma natural para conforto e segurança. Estava mais do que convencida, pensei, vamos a isso.
Quando abri a embalagem, pensei que tinha comprado uma caixa de cartuchos de balas perfuradoras, daquelas de calibre suficiente para matar um javali macho, adulto e difícil de se dar por achado.
Tirei um que revelou uma consistência entre o ferro e o betão armado. Não via como é que uma coisa rija como chifres se poderia adaptar e ainda mais suavemente como anunciado.
Quando retirei o invólucro transparente senti uma aspereza nas mãos que me deixou ansiosa. Parecia aquele cartão que se põe entre as garrafas para elas não se partirem, sabem como é?
Mas o pior estava  para vir. O fio, aquele delicado fiozinho de algodão que passa despercebido entre as nossas mãos, de tão suave e fofo que é, parecia ser um cordel, daqueles de atar fardos de bacalhau. Com certeza que já muitas encomendas foram entregues por este mundo fora, apertadas por fios bem mais delicados. Com um bocadinho de sorte, e em caso de necessidade, ainda me poderia ser útil para um rappel em plena montanha.
Bom, escusado será dizer que é realmente necessário estar calma, relaxada e a pensar em coisas muito boas para conseguir enfiar uma coisa daquelas. Mas, verdade seja dita, cumpre a sua missão. E bem. Para tirar… Bom… Só por muita vergonha não grito por ajuda.
E pronto, sei que não foi um post muito lúdico, mas também de coisas comuns se trata este blog. Sobretudo de coisas de mulheres.
Fiz hoje justiça ao Tampão e estou feliz por isso.
E depois ainda me vêm falar de Machu Pichu, do Taj Mahal, do Redentor……


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Queridas parceiras, cá estou eu mais uma vez a tentar redimir-me da ausência forçada ao nosso tão querido convívio mas como sempre, a razão para a minha não comparência é mais que válida. Dá pelo nome de irmã mais nova.
Quem tem uma irmã mais nova sabe sobre o que vou falar. Quem não tem, apenas sorrirá condescendente mas por certo, longe de alcançar o verdadeiro sentido das palavras.
Quando um(a) irmão/irmã mais novo nasce, sobretudo se com uma diferença de dez anos como é o meu caso, o nosso mundo entra em mutação irremediável. Aliás, muito antes disso nós já não somos mais os mesmos.
Tinha eu dez anos quando acompanhei a minha mãe à famosa Farmácio Estácio no Rossio, para fazer a análise, a minha mãe, claro, daquilo que já há alguns dias se admitia como certo. Pedi, no alto dos meus dois rabichos, à senhora que tomou conta do xixi da minha mãe, que por favor, fizesse com que o resultado desse positivo. E deu.
A minha alegria era muito maior que eu. Apesar de saber que o bebé iria nascer em Agosto, bem no pico do calor, fui de imediato comprar a primeira peça de enxoval, nada mais nada menos que umas botinhas de lá, castanhas e cor de laranja, bem apropriadas ao “frio” do Verão.
Foram nove meses de espera…..e mais espera.
Mas quando ela nasceu e a vi pela primeira vez, com hora e meia de vida, e pouco depois lhe peguei ao colo, soube que estava feita ao bife, estava quilhada, estada tramada para o resto da vida.
Quando o irmão mais velho fala, geralmente baixamos as orelhas. Mas quando o mais novo resmunga, ou suspira, ou embirra, ou chateia, ou melga, ou abusa, aí não só baixamos as orelhas como também as calças assim a modos que “bate que eu gosto”.
O irmão mais novo será a meu ver uma espécie de filho, um gajo por vezes chato, melga, embirrante, mau feitio, mas a quem tudo se perdoa. E até, na maioria das vezes se acha graça.
Bom, vem esta lenga lenga toda a propósito, que a minha ausência se deveu a ter tido a tão desejada e feliz visita da minha irmã mais nova que me “ocupou” cada segundo dos meus dias e de quem já tenho muitas saudades apesar de ter ido embora há poucos dias.
E agora digam-me, como é que eu podia “aturá-la” e escrever posts?….rsrs
Fomos a Cape Town, ao Kruger Park, demos voltas excelentes, mas de tudo isso falarei depois.
Hoje queria apenas que me perdoassem pela ausência e estou certa que o farão pois de alguma forma também algumas de vocês serão vitimas do facto de serem as irmãs do meio.
Valha-nos, que como diz o povo, no meio é que está a virtude.


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Caras parceiras destas crónicas, estou de volta mas poderia não estar. Pudesse eu dar largas aos meus quereres e vocês haviam de me apanhar era na praia de Ponta do Ouro, em pleno estado de paraíso reencontrado.
Valeram as horas de espera na fronteira, valeu o senhor na alfandega ter feito uma “atençãozinha” nos vistos, valeu a cavalgada infernal num jipe que devorava estradas de areia solta, fofa e funda, tal como eu devoro coentros.
Chegar a Moçambique é voltar a ver franqueza, simpatia, abraços, ternura nos olhos das pessoas.
Vá-se lá saber porquê, continuo apaixonada pelo povo, tal como no primeiro dia.
E, depois de saber que é o terceiro país mais pobre do mundo e que de infraestruturas tem tanto como eu de graduações em física molecular, é impossível não gostar de quem apesar de tudo isso oferece de mãos abertas o que tem: simpatia, colaboração, ajuda, sorrisos.
As praias….é melhor nem falar. Águas limpas, mornas, suaves, como que a receber e aconchegar os náufragos que como nós, nunca sabem onde ancorar e vivem à procura de coisas que nunca existirão.
Mas, o episódio mais hilariante, haveria de surgir por parte de um rapaz bem apessoado, diga-se, mas com um ego várias vezes superior ao tamanho dele.
A figura, tanto quanto eu soube, rico de nascença, pelos vistos descobriu em si dotes de um mentalista capaz das maiores façanhas. Estava a dar no parque onde ficámos, um curso de qualquer coisa a ver com consciência, eu, ego, de onde venho, se quiser posso tudo, sou o maior, está tudo na cabeça, faça você mesmo e uma série de tretas que me deixam para lá de agoniada.
Domingo à noite estava então preparada a cereja no topo do bolo, o clímax, o orgasmo múltiplo, ou seja, atravessar descalço como veio ao mundo, uns metros de cinzas ainda incandescentes, pois se é para fazer vista que seja em grande.
Eu estava com uma pessoa que em tempos tinha feito o mesmo e me garantiu que desde que a pessoa esteja mentalmente preparada e devidamente concentrada, consegue fazer a dita travessia e os únicos sintomas secundários de que a própria tinha padecido foram duas noites de insónia e suores, afrontamentos, durante algum tempo. Pudera, pensei eu.
Bom, esta fonte de informação é inquestionável mas mesmo assim resisti facilmente ao convite de participar naquilo que para mim é uma parvoíce.
Mas claro, nem preciso de vos dizer que às oito da noite lá fui eu de máquina em punho, preparada para não perder pitada e registar os grandes feitos.
Só a preparação para o festim deixou-me em lágrimas. As rodas, as palmas, os gritos de guerra, tudo era digno de um circo de quinta categoria.
As pessoas que estavam comigo garantiram que aquilo não ia dar certo. O tipo era um charlatão, um manipulador, uma figura absolutamente antipática e ainda por cima convencido que tem poderes sobrenaturais capaz de o colocar no Olimpo dos mais bafejados por dons inquestionáveis.
No entretanto, eu ouvia comentários num grupo de negros simpatiquíssimos, sobre se tudo aquilo seria magia….ou droga. Dei por mim de joelhos no chão, dobrada, a rir até às lágrimas rolarem incontrolavelmente, enquanto o grupo dos iluminados batia palmas e gritava “cole….qualquer coisa que agora não me lembro”.
Ele, o dito, foi o primeiro a passar e toda a gente percebeu que ele se tinha queimado a sério. Mas o orgulho, a vergonha ou ambos, impediram-no de dar parte de fraco. Figura triste.
O segundo passou mas ficou de tal maneira queimado que começou aos gritos e só o sossegaram com os pés enfiados em água.
O terceiro disse que não atravessava porra nenhuma e que aquilo era a maior estupidez que tinha visto.
A noite da consagração acabou assim com pés queimados, mau humor, acusações cáusticas. Os ânimos “ferviam”.
Ao outro dia, pelas sete da manhã, o “mestre” tentava caminhar na praia mas os pés queimados apenas o deixavam manquejar como se de um velhinho se tratasse. Mais tarde vi que tinha os pés negros, inchados, rebrilhavam de febre.
Do resto da malta não se soube mais nada mas cá para mim, fizeram a trouxa e partiram quanto antes. Ninguém sabe o que ele ainda poderia inventar.
A mulher, nova, ar abatido, autêntica mosca morta, é um ser que papagueia o que ele dita. Na manhã seguinte viu-se obrigada a vir até nós justificar o fracasso das cinzas. Não sei porquê, nada tínhamos a ver com aquilo. Mas é dela a necessidade de explicar tudo. Quer se fale em água, em planetas, em cenouras, aipo ou sal marinho, ela tem sempre vários parágrafos a dizer sobre esses assuntos e outros tantos relacionados. Ou não.
Ah! E por falar em golfinhos, fomos dar um passeio de barco, mergulhamos e nadamos debaixo de água com golfinhos. Foi lindo, tê-los ali tão perto, a brincar, dançar, sempre aos pares.
E já que falo de coisas boas, o camarão, os rissóis, a batatas fritas, até que nem estavam nada maus……a Laurentina (cerveja) e a 2M (cerveja) também não.
Malta, é isto, desculpem o post tão grande mas com tanto para contar acabou por ficar do tamanho do abraço de Moçambique. Aquilo pega-se.


Nascer do Sol na Ponta do Ouro (Foto: Tangas)

Antes que a Tangas comece a esbracejar, a enviar mails, ameaças, sopapos virtuais e outros que tais (rimou mas nem era a intenção), venho aqui deixar uma crónica antecipada.
Minhas caras, este fim de semana vou a banhos moçambicanos. A menina Tangas vai ter um ataque de inveja ao saber que estou na terra dela mas a verdade tem que ser dita. E lida.
É verdade. Ponta do Ouro espera-me com uns excepcionais 29, 30 graus……hummmmmm…..cheira-me a paraíso.
Estou tão contente que até consigo relevar os cinquenta rands que gastei agora mesmo na compra do remédio para a Malária. Enfim…..
Bom, mas deixem-me contar esta para não dizerem que não vos trago nada daqui desta parte do mundo.
Já consegui pendurar aqui nas paredes de casa vários mapas. Mundo, Europa, Marrocos e por aí vai. Já fiz fotocópia e plastifiquei o do mundo para poder riscar à vontade e ontem fui fazer o mesmo com o da Europa, enorme, um A0, tipo metro e meio por dois metros, coisa assim….ok……pedi cópia e plastificado.
Tudo bem, deram-me aquilo já enroladinho e lá vim eu a conduzir a Big Boy só com uma mão (já sou expert) e quando cheguei a casa, abri o mapa e peguei na caneta de feltro grossa para começar a riscar, qual não foi o meu espanto quando vi que tinham plastificado do lado contrário, do lado branco, do lado improvável. Quis morrer.
Hoje fui lá de manhã e nem vos conto o que precisei de me torcer para que eles percebessem que tinham que fazer tudo de novo. Pois eles eram três, três, a tentar explicar-me que aquilo estava plastificado….e bem. Creio que só quando comecei a revirar os olhos e a falar uma oitava acima do barulho infernal das fotocopiadoras eles se deram por vencidos. Mas não convencidos, tenho que referir.
Aprendi, em momentos como este, a esticar os braços em posição zen, juntar os dois dedinhos num  suposto circulo, fechar os olhos e dizer baixinho: I can improve. Tem dado alguns resultados embora não tantos como eu gostaria.
Em remate de conversa, acabei de vir do médico. Fui toda observadinha e ele diz que estou óptima. E claro, mais meia centena de rands ao ar.
Darei um mergulho por todas vocês, sei que não é bonito querer o bem só para nós.
Alguma coisa me diz que estes dias vão ser uma aventura. Esperem novidades.


Há espera do começo das hostilidades... (Foto: Pagu)

Eu sei, eu sei, sei que me atrasei outra vez e que um dia destes me arrisco a chegar aqui, tentar colocar a crónica e ter a porta trancada. Mas, acreditem, tem havido sempre uma coisa ou outra que me impede de chegar a tempo.
Mas, anda bem que me atrasei pois o post de hoje é sobre o meu passado sábado.
Depois dos afazeres matinais, fui até Joanesburgo em busca do Nirvana. Ok, eu explico. Dada a miséria alimentar em que vivo por aqui, resolvi dar ouvidos a todas as opiniões que tinha escutado sobre uma certa e determinada pastelaria, localizada na supra citada cidade, em que pelos vistos, se podiam comer as melhores iguarias que alguma vez foram saboreadas ao cimo da terra.
Foi-me garantido, a pés juntos e com expressões faciais de puro desvelo e admiração que o senhor embaixador quando quer um pastelinho de nata vai lá sempre comprar. Tudo bem pensei, o dito senhor já deve ter provado alguma vez um pastel de nata em Lisboa e saberá do que afinal de contas estamos a falar.
Ah! Também foram incluídos na lista dos prazeres a não perder, os pregos e os salgados do Bem Bom.
Faço aqui um pequeno aparte só para deixar dito que o nome Bem Bom não me inspirou nada de bom. Bem…..
Lá chegando, pediram-se então os ditos pregos e salgados. O croquete razoável embora picante como o diacho, para não fugir aos padrões locais, o rissol razoável menos, o prego…..qualquer tasca de vão de escada em Lisboa dá dez a zero naquilo.
O pastel de nata nem cheguei a provar, bastou-me ver o aspecto para perceber logo que tinha um Não Satisfaz mesmo nada assegurado. Quem provou confirmou as minhas suspeitas. Para ser apenas mau teria que melhorar muito. Mas, tinham Super Bock, que não bebi mas foi bom ver a garrafinha de novo.
Comprei também uma broa de milho que se mostrou desenxabida e sem alma.
E fico a pensar, se esta malta pensa que isto é bom, acredito em múltiplos orgasmos alimentares colectivos se alguma vez provassem a nossa verdadeira comida.
Sábado à noite fui pela primeira vez ver ao vivo e a cores um jogo de rugby. Nem mais nem menos que a equipa mais famosa, aqui de pretória, os consagrados Bulls contra os Brumbies.
Gostei muito, sobretudo de ver a paixão por um jogo que para eles é idolatrado até ao mais pequeno pormenor. Estes tipos vivem, respiram e suspiram por rugby.
E o que vi foi uma festa, de famílias, miudagem, mulheres, tudo muito bem comportado, havia piqueniques familiares perto dos imensos carros estacionados, tudo parecia ter-se congregado para um final de dia bem passado.
Não havia o cheiro a bifanas, nem couratos, mas também não houve peitadas nos árbitros, perdas de tempo, agressões e cuspidelas no adversário, ofensas à mãe de cada um, palavrões, idas para aqui e para acoli, enfim, tudo aquilo a que estamos habituados em qualquer Fafe – Odemira.
Foi sem dúvida um bom espelho do comportamento dos sul-africanos que parecem não se alterar com coisa nenhuma e mantêm o fair-play em qualquer situação.
E mesmo em situações que para nós seriam caricatas como sejam, o jogo a decorrer, o touro dos Bulls a fazer palhaçadas, as meninas com os pompons a chatear, ainda assim eles conseguem bater palmas a tudo ao mesmo tempo.
Não percebo todas as regras do jogo mas fiz a minha parte. Puxei pelos Bulls, bati palmas e portei-me bem. Bem ao modo South African.


Queridas amigas, nao quero que fiquem preocupadas comigo ou que gastem os ja poucos euros em missoes de resgaste, mas a unica forma de eu comparecer aqui foi sujeitar-me a humilhacao de ter que escrever num teclado sul africano.

Fruto do mau bocado que passei com esta crise de pulmoes, sinto a minha paciencia rarefeita, como se de um momento para o outro a tivessem transportado para o topo do Everest.

Hoje entao estou num daqueles dias em que se pudesse me auto transportava para bem loge daqui e bem perto dai.

Nem um teclado de jeito estes gajos tem.

Quem, como nos, teve o privilegio de dar os primeiros passinhos no mundo da leitura e ortografia na lingua de Camoes, Pessoa, Eca, ver-se agora a bracos com esta forma selvatica de escrita e algo que deixa qualquer um de rastos.

Perguntarao voces porque estou hoje assim. Bom, a comida absolutamente intragavel daqui anda a deixar-me de mau humor. Hoje fui comprar um frango assado a um bom supermercado aqui perto. No entretanto perguntei onde podia encontrar pacotes de batas fritas….primeiro levaram-me a comida ja feita e eu disse que queria em pacote. Ok…levaram-me aos congelados. Como eu insistisse, disseram que nao tinham. Dez minutos depois dei com elas…furiosa. Cheguei a casa e quando me preparava para desmontar o frango, deparo-me com o horrivel espectaculo de ver tudo o que sao interiores, orgaos e miudezas, la guardadinhos dentro.

O melhor de tudo e que nesta terra podemos perder as estribeiras a vontade e chingar a mae e o pai deles sem dar muito nas vistas. Eu vou desabafando enquanto uma censura interna me grita piiiiiiiiiiiiiii e piiiiiiiiiiiiiiiiiiii sem interrupcao.

Affffffffffffffff…as vezes estar longe de casa enlouquece….

Alguem falou em resgate?


Afffffffffffff…..foi duro, difícil, manhoso, mas acho que consegui. Estou de volta.

Minhas queridas companheiras destas lides bloguísticas, nem por um momento vos abandonei ou vos esqueci. Longe disso.

O que aconteceu foi que os últimos dias em Lisboa, com uma ida de quatro dias a Paris pelo meio, foram uma verdadeira loucura mas o que aconteceu depois não foi melhor.

Resumindo mesmo muito muito muito, no meu regresso a África do Sul, uma infecção pulmonar levou-me a viajar entre o limbo, médicos, hospitais, exames, raiox, ultra sons, antibióticos, termómetros a arder e eu absolutamente ko a pensar que já só regressava à lusa pátria, devidamente embalada. De tudo se suspitou, desde a malária, paludismo, pneumonia, hepatite….sabem como eu sou, tudo em grande, nada pela metade.

De facto não sei por onde andei nos primeiros oito dias aqui, tão grande era o padecer.

Mas o que importa é que já me sinto melhor e que aguardo que os próximos dias, talvez duas semanitas, me deixem perto da grande forma.

Cá para mim, esta história terá a ver com aquele friozinho manhoso na cidade Luz. Eu já conhecia como aquilo é mas desta vez esmerei-me e no dia da subida à Torre Eiffel, consegui ir com a camisola mais fresca que tinha na bagagem. Sei lá, fosse isso ou o facto de ter passado de um país onde se põe creme de hemorróidas na cara para alisar e tratar das rugas, para um onde Prada, Versage, Monaslisas, Louvres, são o dia a dia, qualquer coisa me fez transtornar os pulmões.

Quer queiram quer não, estes choques culturais não se levam assim, a seco.

Meninas e agora que já deixei o vosso coração tranquilo, vou ali dar uma pequena volta, preciso de recomeçar a viver nos mil por cento habituais. Bom, como a coisa está, setenta por cento já me parece bem….rsrs

E a propósito, alguém me informa como vão os passeios do Tangas?

Beijos e abraços.

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