Eduarda Ferreira

Aliar a profissão ao percurso activista

Eduarda Ferreira faz parte da geração que acompanhou de perto a evolução do movimento lgbt em Portugal. A sua contribuição para o seu desenvolvimento não foi pequena, tendo participado activamente em associações e eventos que ficarão para a história social portuguesa. Actualmente procura espaços e formas de intervenção fora do circuito das associações, aproveitando a sua experiência na área da orientação sexual e de género, encarando isso como uma necessidade.

Tangas Lésbicas (TL): O que a levou a tomar parte activa no movimento lgbt?

Eduarda Ferreira (EF): A necessidade de participar na conquista de direitos para as pessoas LGBT, o acreditar que está nas nossas mãos podermos contribuir para a mudança, o sentir que no caso das lésbicas em particular existia um vazio enorme na área do trabalho associativo e da intervenção social e política.

TL: Em que altura isso se deu?

EF: Por volta de 1997, já com “alguma” idade. Até essa altura tinha andado afastada das questões LGBT, mas sempre com alguma inquietação, com vontade de fazer algo. Foi por essa altura que em Portugal começaram a surgir as associações LGBT e eu juntei-me a esse movimento.

TL: Fez parte do Grupo de Mulheres da ILGA-Portugal?

EF: Cheguei a ir a algumas reuniões iniciais, mas como me envolvi com o Clube Safo desenvolvi a minha actividade nesta associação. Mas foi no Grupo de Mulheres da ILGA-Portugal que tive a minha primeira reunião numa associação LGBT, foi um momento marcante🙂 e foi o primeiro passo.

TL: Como se deu a sua ligação ao Clube Safo?

EF: Conheci algumas pessoas do Clube Safo num Pride em Lisboa. Achei interessante o projecto e fui ao acampamento desse ano. Fez todo o sentido para mim participar num grupo que trabalhava especificamente questões lésbicas. Desde o início que assumi uma postura activa e participei na organização da associação.

 TL: Para si, qual foi a importância de um grupo como do Clube Safo para o desenvolvimento de uma forma de estar mais assumida entre as lésbicas portuguesas?

EF: Em primeiro lugar o Clube Safo foi fundamental para a minha visibilidade enquanto lésbica. Foi nesta associação que desenvolvi o que se pode chamar uma “identidade lésbica positiva”. O existirem espaços de interacção entre mulheres onde se sentiam livres e confortáveis para assumirem a sua orientação sexual, teve um efeito contaminador para outros contextos de vida facilitando o processo de visibilidade. Também foi extremamente importante existir um discurso público, como por exemplo entrevistas nos jornais e na TV, em que várias mulheres deram a cara e assumiram ser lésbicas.

TL: Concorda com o uso do termo “lésbicas”, tão contestado até pelas mulheres homossexuais?

EF: Eu posso dizer que passei de mulher homossexual a lésbica. Esta mudança de designação reflecte uma mudança de entendimento das questões relacionadas com os direitos das mulheres lésbicas. O apropriarmo-nos da palavra “lésbica”, que tem uma conotação negativa, e transformá-la na palavra que escolhemos para nos identificar é uma atitude fracturante que provoca o esvaziamento do insulto.

 TL:É realmente importante pôr rótulos às pessoas e “arrumá-las” em categorias separadas?

EF: O importante é romper com as caixinhas onde teimamos em “arrumar” as pessoas. A utilização de categorias, como lésbicas por exemplo, só é importante num contexto de luta por direitos. Podemos dizer que se luta pelo direito a ser lésbica em todos os momentos, espaços e contextos, para que ser lésbica deixe de ter qualquer importância. A ILGA-Portugal teve uma campanha publicitária há alguns anos que tinha como lema “Pelo direito à indiferença”, e é exactamente essa a ideia. Mas para que seja de facto verdadeiramente possível ser indiferente, não termos rótulos nem caixinhas, é preciso que as pessoas não sejam discriminadas por serem diferentes.

TL: Voltando ao seu activismo, além do Clube Safo, em que outras associações participou?

EF: Após o meu afastamento do Clube Safo por querer desenvolver outros projectos, fui uma das dinamizadoras da criação do LES – Grupo de Discussão sobre Questões Lésbicas e actualmente colaboro com a APF Lisboa Tejo e Sado.

TL: Qual foi a posição da sua família em relação a este seu percurso?

EF: A minha família sempre me apoiou em todos os aspectos da minha vida, incluindo a minha orientação sexual, e esse facto foi fundamental para que desde muito cedo tenha tido uma postura de visibilidade sem grande esforço nem dificuldade. As minhas actividades associativas foram e são encaradas com orgulho por parte da minha família. Sinto-me valorizada por elas e eles🙂

 TL: Quer falar-nos da Les Online?

EF: Este projecto começou a tomar forma em Outubro de 2005, quando 2 dos elementos da actual equipa editorial da LES Online criaram o blog Sexualidades no Feminino. Este blog tinha como subtítulo “Questões sobre relações lésbicas”. Definia-se como um espaço aberto a todas as mulheres e todos os homens que queiram pensar, debater e reflectir sobre a sexualidade nas mulheres. Considerando também, que dar visibilidade a estes temas é contribuir activamente para contrariar o duplo padrão que existe quando se abordam questões de sexualidade em mulheres e homens, sendo a das mulheres sempre mais silenciada e invisível. Em Abril de 2008 as promotoras do blog, em conjunto com mais algumas mulheres, organizam o Grupo LES – Grupo de Discussão sobre Questões Lésbicas. Este grupo apresenta como objectivo contribuir para a reflexão sobre as questões lésbicas e para o desenvolvimento de acções que promovam os direitos e a igualdade de oportunidade das mulheres lésbicas nas várias dimensões da sua vida, contribuindo, desta forma, para a criação de uma melhor qualidade de vida para todas e todos. A LES Online surge como um projecto deste grupo e tem como objectivo contribuir para a reflexão sobre questões lésbicas e promover os direitos e a igualdade de oportunidade das mulheres lésbicas. Pretende divulgar estudos e investigações de carácter científico, assim como projectos de intervenção e artigos de opinião, relacionados com as diversas vertentes da temática lésbica. É uma publicação online, sem versão em papel, porque o seu objectivo é ser uma publicação digital, o mais possível acessível a todas as pessoas.

 TL: A comunidade lgbt é frequentemente referida como um lobby ou um grupo cujos interesses particulares ameaçam de alguma forma o resto da sociedade. Concorda com isso?

EF: De forma alguma. Só num contexto em que tudo o que é diferente é temido, é que se entende esse medo. As pessoas LGBT pela sua própria existência perturbam a ordem estabelecida, questionam os papéis de género, a estrutura patriarcal, a sexualidade, provocam desequilíbrios na estrutura heterossexista da sociedade, e creio ser esta a razão pela qual algumas pessoas se sentem ameaçadas.

TL: Em que medida é que o movimento lgbt e a sua luta influenciou a luta pelos direitos humanos em Portugal e no mundo?

EF: Sempre que se conquista direitos para um grupo específico da sociedade, todas e todos ficamos a ganhar, existe um avanço na qualidade de vida de tod@s nós. Para além deste aspecto mais geral, os movimentos pelos direitos civis específicos de determinado grupo promovem formas de luta e de intervenção que se podem estender a outros campos promovendo e contagiando outras lutas de outros grupos.

 TL:Acha que a “causa lésbica” é dissociável do feminismo?

EF: Parece-me que têm muito em comum e que têm muito a ganhar se caminharem em conjunto. No caso Português temos tido uma grande interacção entre as causas lésbicas e feministas. No entanto, existem questões específicas das lésbicas que não se enquadram num contexto unicamente feminista. É necessário um espaço autónomo de intervenção. O primeiro número da LES Online foi precisamente sobre este assunto.

TL: O que está por fazer?

EF: Muito🙂 contestar, pensar criticamente, questionar, intervir, lutar, reivindicar, reclamar, exigir, persuadir, conquistar, dinamizar, promover, reflectir, … e muito mais, no sentido de uma sociedade mais justa e igual para todas e todos.

 TL: Gostaria de colaborar com o Tangas Lésbicas e usar os seus conhecimentos e sentido de humor para acotovelar as causas sociais?

EF: Gostar, gostava🙂 o problema é o tempo. Neste momento, e nos próximos anos, sou trabalhadora estudante. Tenho falta de tempo para ler, estudar, reflectir e aprofundar tudo o que gostaria e que preciso para o meu projecto de investigação. Mas … quem sabe se não vão surgindo algumas notas soltas.

Transformismo feminino em documentário

‘Betty Santos’ vista por Margarida Batista e Mariana Madureira

Margarida Batista

Margarida Batista

Um tema que não é pacífico foi a escolha de estas duas mulheres para a sua estreia no cinema documental. Ao Tangas, Margarida Batista, que trabalha há muitos anos como técnica de gestão de emissão em televisão, justifica a opção:

– Adoro documentários, estar atenta ao que nos rodeia. Um documentário é sempre isso: documenta as nossas vidas. A Margarida Madureira é mais ligada à área da escrita e do guionismo. Estes dois interesses, juntaram-nos para fazer este trabalho. A ideia foi das duas, mas foi a Margarida que me desafiou inicialmente para o projecto.

Tangas: Qual era a ideia inicial?

Margarida Madureira

Margarida Madureira

A ideia inicial era contar um bocadinho de várias vidas cruzadas. Mas entretanto vimos, por acaso, a Betty Santos a actuar. Ficámos surpreendidas com o show de transformismo feminino, que desconhecíamos existir.

Isso foi há quanto tempo?

No início deste ano.

E quanto tempo levaram a escrever a ideia? E a passar à acção?

Levámos pelo menos um mês a assentar a ideia final. Falámos com várias pessoas do meio do transformismo português e, claro com a própria protagonista que aceitou com agrado a nossa proposta.

Na altura ficámos a saber que ela era realmente a única transformista feminina no activo em Portugal quando no resto da Europa existem bastantes mais. Achámos que era digno registar esta história em filme.

O cartaz do documentário

O cartaz do documentário

O que é que as pessoas vão ver quando se sentarem no São Jorge para assistir ao vosso documentário? Quanto tempo demora?

Tem 52 minutos. Vão ver por um lado, uma análise sobre o transformismo feminino que se faz no nosso país e irão conhecer o trabalho e a vida da nossa única Drag King. O documentário engloba uma série de entrevistas a familiares e colegas de Betty Santos, bem como actores, antropólogos, psicólogos.

E o nome que aparece no documentário é o real?

Não. É o nome artístico.

Que idade tem?

Na altura em que fizémos o documentário tinha 45.

Uma imagem de Betty Santos

Uma imagem de Betty Santos

O que pensam vocês sobre o que mostra este projecto? Uma vida conseguida? Ou nem por isso?

A Betty Santos é uma lutadora, uma sobrevivente.

Era isso o que estavam à espera?

Não. Ficámos surpreendidas com muitas facetas inesperadas da vida e do trabalho dela. Nesse sentido foi uma óptima aprendizagem. Até então não conhecíamos o mundo do transformismo duma forma geral e muito menos no feminino.

Desde o 25 de Abril que a Betty Santos continua sozinha a lutar e a defender este tipo de espectáculo. Antes tínhamos a Helena Correia que foi forçada a pôr fim à actividade. O mundo do transformismo não é fácil.

Betty em cenário lisboeta

Betty em cenário lisboeta

Quem é afinal a Betty Santos?

Boa pergunta. Nós questionámos isso. Bom, é uma mulher que representa uma minoria de outra minoria . Merece ser valorizada pela coragem que tem. Teve uma vida complicada, da qual fala abertamente no documentário. Além disso, os seus espectáculos cativam quer homens quer mulheres, independentemente das suas orientações sexuais.

O que vos parecem os espectáculos dela? O que vos cativou a ponto de o passarem para documentário?

Concentrámo-nos no facto dela ser a única. Porquê a única? Quem é ela? Foram essas as nossas questões.

Um momento do espectáculo

Um momento do espectáculo

Que respostas encontraram?

A Margarida M. acha que as mulheres são mais inibidas que os homens e que têm mais dificuldade em pisar um palco sobretudo fazendo um espectáculo deste género. Quanto a mim não acredito que as mulheres tenham só vergonha. Acho que o espectáculo é mesmo diferente.

Todo o documentário foi uma busca dessas respostas e gerou respostas controversas nos próprios entrevistados.

Acham que o público vai reagir também de forma diversa?

Esperamos que sim.

Quanto à realização do documentário, a produção também foi uma estreia para a Margarida Madureira. Como puseram tudo de pé,com que meios, com que ajudas?

Com orçamento pessoal, material amador, três excelentes temas musicais cedidos por amigos e um quarto tema cedido por um transformista intérprete. E muito boa vontade, persistência e dedicação.

Ainda não tivémos tempo para contabilizar mas já vai em muito…

Como surgiu a proposta de apresentar o trabalho ao Queer Lisboa?

Recebemos a proposta através de um amigo da Margarida M. Posteriormente concorremos ao festival e fomos seleccionadas. Que este seja o primeiro de muitos.


Margarida Madureira, guionista e produtora deste documentário sobre Betty Santos, é professora de Filosofia e também autora de um dos contos seleccionados para o livro Contos da Diferença, promovido pelo Tangas Lésbicas. Às duas Margaridas, os nossos parabéns e votos de uma grande estreia no cinema.

Não percam, a 19 e a 21 de Setembro, no São Jorge, no Queer Lisboa 2009.


ENTREVISTA

Lilian Werneck

‘Mobile: Admiração’ pode ser visto na net

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Quem é Lilian Werneck e como surge ‘O Móbile: Admiração’?
Sempre digo que sou “um móbile no furacão, qualquer calmaria me dá solidão”. Essa frase, do compositor brasileiro Paulinho Moska, é o ponto de partida para dizer quem eu sou. Digamos que já fui de tudo um muito nos meus trinta e poucos anos. Como geminiana, nunca consegui ficar parada por muito tempo. Comecei como atriz, toquei violão, achei que podia ser fotógrafa, ou repórter, quem sabe. Fui fazer jornalismo. Até que um dia comecei a escrever roteiros. Pra tentar ganhar dinheiro, trabalhei com produção cultural. E, em meio a isso, me arrisquei a ser editora. Um dia, me convidaram para dirigir um programa em uma TV a cabo de minha cidade, Juiz de Fora, Minas Gerais. E eu percebi que aquilo era a reunião de tudo o que eu gostaria de ter sido e não fui. Senti-me completamente realizada sendo diretora, uma profissão que conseguia ser para mim um ponto fixo em meio a milhares de vontades e desejos. Também posso dizer que sou mulher, mineira (quem conhece Minas Gerais, no Brasil, sabe porque isso é importante…), feliz, apesar da constante busca pela realização profissional, e homossexual. Desse último ponto, misturado a todo o resto, surge “O Móbile”, uma série de cinco curtas que contam diferentes histórias de amor entre mulheres. “Admiração” é o primeiro deles, traz o conflito amor versus arte. Um tema presente em minha vida, um tema que acho importante abordar. Por que muitas vezes, para criar, precisamos sofrer? Ou, por que há tanto medo de ser feliz? A paixão entre a pintora Bárbara e a atriz Nina é muito maior do que se pode imaginar, porque vem da admiração artística entre elas. Uma era inspiração para a outra. Quando se alcançam, se tocam, se amam, o que acontece? Essa é a proposta do filme.

É a sua primeira obra como realizadora?
É minha primeira curta metragem profissional, realizada através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura Murilo Mendes, da minha cidade. Mas já dirigi programas de TV, clipes musicais, um documentário, algumas curtas experimentais e um DVD musical do qual me orgulho muito, do grupo mineiro Lúdica Música!. Alguns portugueses já devem ter ouvido falar deles, pois o grupo, liderado por Isabella Ladeira e Rosana Brito, fez várias temporadas por aí!

“Duas mulheres amadurecem depois da paixão que vivem. Percebem que nada na vida é mais importante que o amor próprio”

O Móbile - Dia 01 (105)

Sobre a história: a paixão/admiração entre duas mulheres bonitas, com carreiras acima do quotidiano da vida real. É uma escolha premeditada?
Sim, foi pensada e proposital. Eu acredito que o preconceito maior existe em mantermos os velhos estereótipos da sociedade paternalista, machista. Nada pior do que os nomes que denominam as mulheres lésbicas, os nomes pesados que nós mesmas acabamos por adotar, talvez pra tentar suavizá-los. Não acredito que nesta altura do campeonato, com tantas conquistas e com a luta constante pela visibilidade, a mulher lésbica ainda precise se esconder atrás de máscaras para poder viver em paz. Mas, por favor, não me interprete mal. Cada uma e cada um tem o direito de ser o que quiser ser. Até mesmo de seguir um estereótipo há tempos engessando em nossa sociedade, se é isso que o faz feliz. Mas da mesma forma, temos que mostrar que as lésbicas são mulheres, acima de tudo! Que podem sim ser bonitas, bem sucedidas, vivendo uma vida plena (apesar das desavenças amorosas). Uma das coisas que mais critico em alguns dos filmes LGBT é a premissa de que toda lésbica é louca, desorientada, drogada, infeliz e que sempre volta para o homem no fim. Nada disso! Apesar da história de “O Móbile: Admiração” não ter um final feliz para as duas, o problema não acontece porque Bárbara e Nina são mulheres, acontece porque quando se apaixonam, perdem o controle da própria vida, vivem demais a vida da outra, aquele amor e só.

Há um final feliz, apesar de tudo?
Claro!! “Admiração” não é uma história depressiva, muito pelo contrário. Duas mulheres amadurecem depois da paixão que vivem. Percebem que nada na vida é mais importante que o amor próprio. De que adianta entregar-se à outra a ponto de se anular? Na verdade, é um pouco da minha luta interna mais intensa. Por isso quis retratá-la no filme. Se pensar pela lição que o filme deixa, fica a certeza que o equilíbrio é sempre o melhor caminho, mesmo quando se ama demais.
Além disso, “O Móbile” tem outras histórias: “Diálogo”, “Confiança”, “Apoio” e “Perdão” – que ainda estão no roteiro. Elas tem finais felizes! Mas não esperem que as resoluções sejam fáceis. Porque, na verdade, eu gosto de trabalhar o drama. Não tem gente que afirma que ninguém faz um drama melhor do a mulher? Então… São filmes sobre mulheres. E se os finais forem sempre felizes, que graça há? Qual o envolvimento com as personagens? Por que esperar até o final para saber qual o resultado daquela trama?

“Durante a realização do filme, três pessoas da minha equipe revelaram ter passado pelo mesmo problema: pararam de produzir quando estavam amando demais”

O Móbile - Dia 01 (125)

A história é veloz e também intensa. Isso corresponde de algum modo à sua forma de encarar as relações?
Não exatamente como eu encaro, mas como tenho reparado acontecer por aí. Vejo amigas, mulheres de várias idades, que estão cada vez mais tendo relações efêmeras, loucas, intensas, até verdadeiras! Mas é cada vez mais raro encontrar um casal que está junto há anos. Isso, diga-se de passagem, algo não restrito às relações homossexuais. Sinto que é uma característica do agora. Tudo ao mesmo tempo agora, rápido! O olhar contemporâneo sobre as coisas e pessoas é cada vez mais veloz, abrangente, mas também raso, superficial. Navegamos pela vida como navegamos na internet: por vários sítios, com milhares de informações, o tempo é precioso e curto, se não aproveitarmos logo, a conexão cai. E aí? Sinto que essa é uma das maiores aflições da atualidade, porque nesse mar ficamos perdidas. E se não acompanharmos? O resultado pode ser pior…
Mas, te confesso, sou de ter relacionamentos longos. Sou de lutar contra essa corrente do efêmero nas relações, apesar de ser bem intensa sempre. Já a velocidade, prática e coerente, eu procuro usar no meu jeito de trabalhar, de resolver as coisas.

“De certa forma, apresenta a relação/paixão como uma forma de sublimação do trabalho do artista/criador. Acredita que é isso que impulsiona muitas vezes o trabalho criativo?
Samba da Benção”, de Vinícius de Moraes, que diz exatamente assim:
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Acho que nada representa melhor o momento do filme do que esses versos. Porque acredito que o processo criativo envolve também um processo doloroso, já que o artista precisa expressar seus sentimentos mais ocultos para ser verdadeiro em suas obras. E dessa forma, quando há uma felicidade extrema, uma paixão avassaladora, fica um pouco complicado explicar para o outro que em alguns momentos a solidão, a dor, o isolamento serão necessários. Não que isso seja uma regra, mas só para exemplificar, durante a realização do filme, três pessoas da minha equipe revelaram ter passado pelo mesmo problema: pararam de produzir quando estavam amando demais. Como disse anteriormente, o filme está aí para mostrar que não precisa ser assim, pra mostrar que quando há o equilíbrio, é bem melhor.

“O amor é maior que tudo, mesmo quando não dá certo ou com tantos conflitos como nessa história. Viver o amor é o mais importante”

Se as personagens fossem amigas suas, como caracterizaria a forma como optam por viver esta paixão?
Sem limites. Acho que elas se perdem, uma na outra. Quando penso em Bárbara e Nina como amigas minhas, me vejo mas próxima de Bárbara. Sem preferências pelas personagens, claro! Mas é que a forma como ela encara o romance das duas é mais verdadeiro. Ela se joga, ela afirma que pode deixar tudo de lado pela namorada, ela não tem medo de viver aquela história. Talvez pela primeira vez ela seja realmente feliz. Assim como a Nina, mas em seu caso, o medo é maior. Em suas próprias palavras, o medo da felicidade. O medo de não conseguir encontrar sua personagem. Então, ela trava no amor para destravar na arte. Eu tentaria dizer, com muita delicadeza, para ela deixar de ser um covarde e se permitir viver mais.

Que mensagem/contributo deixa, na sua opinião, O Móbile: Admiração para as mulheres e lésbicas?
Que o amor é maior que tudo, mesmo quando não dá certo ou com tantos conflitos como nessa história. Viver o amor é o mais importante. Sempre vale a pena, por mais doloroso que acabe sendo. Também quero mostrar uma história lésbica que assim como delicadeza e sensibilidade, também tem sexo e fúria. E aproveitar para levar adiante a idéia de que quanto mais nos mostramos, mais conquistamos nosso espaço. A mulher precisa ser quem ela é, sempre, em todos os lugares e de todas as formas.

“Queria fazer com qualidade, a máxima que a condição financeira do filme me permitisse”

Quanto tempo levou a escrever o argumento?
Os cinco roteiros me levaram 3 meses de escrita, em seu primeiro rascunho. Mas quando decidi trabalhar com “Admiração”, foi mais de um ano de reescritas. E, com um olhar mais atento percebe-se que o filme ficou bem diferente do roteiro literário que usamos como guia. Isso porque acredito que tanto o roteiro quanto a história se moldam conforme as pessoas que se envolvem com elas. Nas primeiras reuniões de criação, demos uma visão tridimensional das personagens, o que redefiniu muita coisa. Daí, quando as atrizes Stefane Ribeiro e Nadja Dulci, as protagonistas, assumiram as personagens, fui bem clara: “agora elas são suas, façam delas o que quiserem. Não me pertencem mais.” E, realmente, Bárbara e Nina tomaram vida própria. Então, digo que escrever o argumento foi o de menos, o mais importante foi tirar do papel e transformar essa história em realidade.

Envolveu muita gente na produção deste trabalho. Foi demorado? Que experiências pessoais retirou desse processo?
Eu convidei um a um dos 25 profissionais que trabalharam comigo neste filme. Fiz questão de tê-los desde o início nessa minha grande realização e de dividir todas as conquistas com eles. Isso não é da boca pra fora, tanto que se for perguntar pra qualquer um que estava nos dias de gravação, ele vai confirmar o quão maravilhosa foi nossa integração, nossa sinergia. Foi uma delícia!! Mas sim, ninguém imagina o trabalho que dá… As pessoas pensam: “ah, é um curta, pra quê tanta gente? E tanto tempo?” E eu respondo: porque eu queria fazer com qualidade, a máxima que a condição financeira do filme me permitisse. E foi o que fiz. A realização completa do curta, da pré à pós produção e lançamento levou um ano e três meses. Mas de gravação mesmo, tivemos somente 4 diárias. Eu quis demorar mais na pré e na pós, para que o filme tivesse o tratamento que merece. Mas não me arrependo nem um pouco por isso. Aliás, uma das maiores experiências que adquiri da realização do curta foi: espere o tempo que for, dê tempo ao filme e às pessoas que nele trabalham. Para se trabalhar com cinema, na minha opinião, as duas coisas mais importantes são paciência e esperança. Só que se me perguntar: “faria tudo igual outra vez?”, respondo de cara: não, faria melhor. Daria mais tempo ainda, corrigiria mais no set os erros, e, com certeza, só faria se tivesse mais dinheiro!

Foi fácil angariar meios para a realização do filme? Os apoios para este tipo de iniciativas são fáceis no Brasil?
Apesar das melhorias no setor nos últimos anos, fazer cinema no Brasil nunca foi fácil. Praticamente 90% dos filmes lançados no país são financiados pela iniciativa privada em contrapartida a benefícios do governo. Ou seja, o dinheiro é do governo. Nesse sentido, o processo é através de editais. E o funil é muito apertado, tanto na hora de passar pela seleção, quanto na hora de captar os apoiadores. Essas leis funcionam a nível federal, estadual e municipal. No meu caso, foi através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura Murilo Mendes, de Juiz de Fora, em Minas Gerais, minha cidade. Essa lei, ao contrário das outras, dá o capital para a produção, não é necessário captar. Mas a verba é muito baixa. O máximo que consegui foram R$ 19 mil. E eu gastei muito mais do meu bolso para finalizar o curta. Não me arrependo, mas quanto aos outros, pretendo fazer através da lei federal, porque é um processo muito caro a realização de um filme, tenha ele 25 ou 120 minutos.

“Nunca vi uma equipe inteira ter tanto respeito pelo tema lésbico, tanta delicadeza para tratar o assunto”

É pacífica para si a gestão de fundos e pessoas para a execução do seu trabalho criativo?
Eu me considero uma sortuda na questão “produção” da coisa. Eu gosto de gerir projetos, sabe? Não que eu tenha esse lado administrativo tão evidente, é que gosto de dirigir!! E, nesse e em todos os outros sentidos, eu tive uma equipe maravilhosa, atrizes e atores perfeitos, ou seja, uma equipe amiga, família. Todos se respeitavam. E, o mais importante, todos respeitavam o fato de ser a primeira experiência em cinema de todos eles, inclusive a minha! Isso foi fundamental para que no set se criasse um clima muito gostoso de cooperativa, parceria. Estávamos juntos nessa jornada, pelo mesmo objetivo. Todos se envolveram tanto na história, nas filmagens, nos momentos de produção que até hoje, mais de um ano após, ainda ouço gente me dizer que foi o melhor trabalho da vida deles. Ou seja, foi um corpo único trabalhando pelo melhor resultado que nos foi possibilitado. Por isso afirmo também que dei sorte nisso: que diretora iniciante iria conseguir ter tanta gente boa, os melhores da minha cidade, num projeto tão pessoal como histórias de amor entre mulheres?
Nesse sentido, só mais um comentário: nunca vi uma equipe inteira ter tanto respeito pelo tema lésbico, tanta delicadeza para tratar o assunto. Não houve piadinhas, grosserias, preconceito! Isso me confirma que foi uma boa direção, no sentido amplo da coisa.

Continuar a trabalhar nesta área e nestes temas faz parte dos seus projectos futuros? incluem mais filmes ou vai tentar outras formas de expressão?
Estou num momento meio complicado da minha vida. Estou recém formada em jornalismo, mudei-me recentemente para o Rio de Janeiro, sei que tenho um currículo amplo e um desejo profundo em trabalhar com o audiovisual. Mas depois que terminei “O Móbile: Admiração” sinto-me meio perdida. Estou à procura de emprego! Se alguém souber de algo? Rsrsrsr… O que tenho certeza é de estar na carreira certa, por isso até já fiz produções em teatro, shows musicais, mas hoje afirmo: sou do audiovisual! Não tem jeito!
E outra: não me desvio desse meu objetivo tão claro que é realizar as outras quatro histórias. É um projeto de vida, sabe? E sim, pretendo continuar mais e mais a trabalhar com temas ligados à homossexualidade. Quero estudar a mídia LGBT pra tentar entender porque ainda é tão difícil escrever sem preconceitos? Sem sexismos? E parte deste estudo é a produção de material em, claro, mídias alternativas! Eu sou muito pró-tecnologia, quanto mais, melhor! E fazer cinema hoje em dia é pegar uma câmera, seja lá qual for, e tirar uma boa idéia da cabeça. Sei o quanto as câmeras digitais de alta definição irão contribuir para esse processo. Já estão! E as câmeras de celulares, web cam, mini-DV, digitais, etc serão a forma de captação mais comum! Assim como a exibição pela internet, algo que defendo com os dentes!

“Quanto mais gente tiver acesso a esse tipo de material sobre a homossexualidade, menos preconceito existirá”

Escolheu uma forma pouco habitual de distribuir o seu trabalho. Fê-lo por falta de veículos mais adequados a uma distribuição comercial deste tipo de filme?
Na verdade, fiz mais por questão de coerência com o que penso e pratico. Sim, os veículos de distribuição adequados são impossíveis para quem está começando! Apenas alguns canais de TV que exibem especiais sobre curtas e as centenas de festivais que proliferam no Brasil. Mas, sinceramente, participar de festivais é algo cada vez mais complicado e simples, num paradoxo não tão difícil de entender. Simples pela abertura a exibição em mídias digitais, DVD, download, etc. Complicado porque as regras estão muito taxativas e é o patrocinador que define quase tudo. Por outro lado, defendendo, cada vez mais existem mostras paralelas e, quase sempre, há uma delas sobre diversidade sexual.
Mas, enfim, são meios mais fechados. E o que penso é que quanto mais gente tiver acesso a esse tipo de material sobre a homossexualidade, menos preconceito existirá. Porque muitas vezes ele acontece por simples medo. Medo do desconhecido. Se há um contato positivo, o trauma muitas vezes desaparece e em seu lugar surge o respeito. E disponibilizar meu filme, que é Creative Commons com censura de 12 anos, para quem puder e quiser ver é o mínimo que posso fazer. A internet se responsabiliza de fazer o resto. Por exemplo, quando na vida eu iria imaginar ser entrevistada pelo Tangas Lésbicas? Nunca! Porque sou do Brasil e vocês de Portugal! Como chegou rápido! E que lindo saber disso! Agora tem gente da Espanha, de Londres, dos Estados Unidos me pedindo o DVD do filme. Isso não tem preço, não paga os mais caros direitos autorais que poderia ter com o filme. Acredito que esse seja o futuro do entretenimento. A TV, o telão de cinema ou a tela do seu computador serão apenas meios de exibição. O conteúdo mesmo, o que é mais importante, será totalmente oriundo da internet.

No seu ponto de vista, é difícil encontrar filmes de temática lésbica e de realizadoras lésbicas? Ou é um segmento que reflecte uma minoria e, portanto, acaba por ser também ele um tipo de produto menos explorado e divulgado
Sim, é difícil encontrar filmes lésbicos e realizadoras lésbicas. Acredito que, principalmente, por sermos ainda um mundo tão preconceituoso e homo fóbico. Porque, acredite, para que o processo funcione, é preciso se entregar a ponto de se assumir. Eu, que sempre fui muito tranquila quanto à minha orientação sexual, só me assumi lésbica para a sociedade em geral com o filme. Todo mundo já sabia, mas eu precisava falar. E desde a primeira entrevista que fizeram com o filme, decidi que iria falar sobre isso. Porque isso fala sobre mim! Então, pode ser doloroso para a realizadora. Mas quem consegue vencer essa barreira, não se arrepende. O produto vem com mais verdade. O medo, na verdade, é ser taxada como “um tipo só” de diretora, e isso realmente não é legal. Mas, olhe, sobre a questão de sermos uma minoria, bem… não acredito muito nisso. Somos tantos e tantas, e tão diversas que é complicado fechar o mundo em heteros, bis e homossexuais. Somos, na verdade, uma parte muito importante e presente da população mundial, temos grandes líderes lésbicas, maravilhosas artistas, inesquecíveis estrelas, mulheres muito bem sucedidas que nos representam e lutam pelos nossos direitos, como a Ellen DeGeneres. E retratar esse universo lésbico, tão rico, é algo maravilhoso e, acredito eu, também rentável. Precisamos sim explorar mais, colocar mais personagens gays positivas nos filmes, séries, telenovelas. Porque é esse o retrato da comunidade mundial: a diversidade. E isso é maravilhoso.

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